{"id":581,"date":"2017-11-29T19:07:41","date_gmt":"2017-11-29T22:07:41","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=581"},"modified":"2017-11-29T19:07:41","modified_gmt":"2017-11-29T22:07:41","slug":"roma-scheda-tecnica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/11\/29\/roma-scheda-tecnica\/","title":{"rendered":"roma: scheda tecnica"},"content":{"rendered":"<p>Eu sabia muito pouca coisa sobre Roma e a It\u00e1lia e, pra falar a verdade, n\u00e3o tive muito tempo nem pilha de pesquisar antes de viajar pra l\u00e1, de modo que chegamos meio no caga\u00e7o numa tarde de s\u00e1bado e fomos aprendendo sobre a cidade \u00e0 medida em que \u00edamos existindo e nos movimentando nela. No fim das contas: bom m\u00e9todo, achei. De lembran\u00e7as mais fortes, a presen\u00e7a constante de moscas em absolutamente todos os restaurantes, bares e demais lugares com comida; e o tr\u00e2nsito estranh\u00edssimo, onde atravessar a rua no come\u00e7o parece uma grande aventura, mas depois de alguns dias tu te acostuma a simplesmente sair caminhando no meio dos carros at\u00e9 que eles (ou pelo menos a maioria) parem pra tu passar.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>geografia: <\/strong>Na sala de espera do aeroporto de Lisboa, n\u00e3o sei se na Wikipedia ou no Wiktravel eu li que, assim como a capital portuguesa e v\u00e1rias outras cidades europeias, Roma havia sido constru\u00edda em cima de sete colinas (que mania), de modo que sobrevoei o bel\u00edssimo terreno montanhoso espanhol e um naco generoso do Mar Mediterr\u00e2neo esperando uma surra de lomba do mesmo grau providenciado pelo nosso \u00faltimo destino assim que aterrizasse. Todavia, por algum motivo, isso n\u00e3o aconteceu. Fora o Gianicolo, em Trastevere, morr\u00e3o brutal que escalei com meu irm\u00e3o para ter uma vista acachapante da cidade como recompensa, n\u00e3o tive nenhuma grande aventura vertical por l\u00e1. Cidade bem estranhona, Roma, ali\u00e1s &#8211; num bom sentido. Umas partes medievais, com ch\u00e3ozinho de pedrinha lisa, sem cal\u00e7ada, dividindo o espa\u00e7o estreito com os carros por entre caminhos repletos de arcos, fontes, vielas, escadas e pracinhas. Outras partes com aquela cara mais urbana semi sovi\u00e9tica de Berlim Oriental, embora com linhas mais arredondadas, mais com cara de decora\u00e7\u00e3o de bolo que pres\u00eddio sofisticado. E a\u00ed, no meio disso tudo, a velharia. Igreja pra caralho, todas sensacionais. Uns restos de pal\u00e1cios, umas colunas carcomidas de 2 mil anos, est\u00e1tua pra tudo quanto \u00e9 lado, uns monumentos gigantescos que te deixam esmagado, humilhado e metralhado como ser humano. O cara pega um tramzinho despretensioso qualquer e de repente BIM: aparece o Coliseu na janela. \u00c9 um teto.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>clima:<\/strong> Vacinado por Lisboa e alertado por amigos, j\u00e1 me preparei prum morninho mais quentucho em Roma, que foi precisamente o que experimentei. Se usei moletom algum dia foi mais pelo fiasco e pelo estilo do que pela necessidade real. No fim, meio parecido com Lisboa: uns 30 graus na tarde, uns 17 na noite. Se tinha sol &#8211; e nem todo dia teve &#8211; ficava um pouco mais casca. Na sombra e com o c\u00e9u encoberto era mais tranquilo. No nosso segundo dia l\u00e1, um domingo, chegou a chover por uns 15 minutos, fazendo brotar de forma muito imediata vendedores indianos de guarda-chuva. S\u00e9rio, isso foi bem impressionante: os caras, que at\u00e9 ent\u00e3o vendiam umas coisas aleat\u00f3rias tipo uns panos ou \u00e1gua e refri, no instante em que come\u00e7ou a chover apareceram cheios de sombrinha de bolso pra empurrar pra rapaziada. Mas foi isso. O ar em Roma ainda estava bem seco, produzindo aquele tatu firme, embora em alguns momentos tenha estado um pouquinho mais \u00famido do que em Portugal (at\u00e9 porque rolou essa garoinha).<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>airbnb:<\/strong> Ficava na Via Amiterno, numa <em>hood<\/em> bem residencial pertinho da Porta San Giovani e da Basilica di San Giovani in Laterano, al\u00e9m da esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 San Giovani, o que me faz suspeitar fortemente que o nome do bairro provavelmente deva ser San Giovani tamb\u00e9m. O apartamento ficava no \u00faltimo bloco de um condom\u00ednio com tr\u00eas pr\u00e9dios, bem no fund\u00e3o. Tu abria um port\u00e3o que tamb\u00e9m servia para os carros, passava por dentro de uma entrada que levava para o primeiro pr\u00e9dio e atravessava o p\u00e1tio repleto de carros, gatos e plantas que levava para o segundo e para o terceiro. L\u00e1 tu abria outra porta menor para ganhar acesso \u00e0s escadas (frias e escuras embora largas, de pedra clara polida e corrim\u00e3o de granito) ou ao elevador (apertadinho, com porta pantogr\u00e1fica, pitoresco). O apartamento em si era bem espa\u00e7oso, com dois grandes quartos equipados com camas de casal &#8211; e mais uma segunda cama de armar para o terceiro (ou quinto) h\u00f3spede &#8211; uma cozinha de bom tamanho com uma mesa redonda num canto e um banheiro legal, equipado com um chuveiro um tanto quanto trai\u00e7oeiro (escorregava do poste e sa\u00eda metralhando pra todo lado, e ainda tinha uma cortina de pl\u00e1stico que, n\u00e3o importava o que se fizesse, sempre molhava a porra toda) e uma m\u00e1quina de lavar (que, todavia, tinha sido arrebentada pelos chineses que ficaram ali antes de n\u00f3s e portanto n\u00e3o estava funcionando). O bizarro desse ap\u00ea \u00e9 que ele n\u00e3o tinha uma sala de estar, um espa\u00e7o comum, e talvez por isso carecesse de uma TV &#8211; o que n\u00e3o chegou a estragar a experi\u00eancia, l\u00f3gico, embora tenha nos privado de mais essa camada de acesso \u00e0 cultura italiana. Tamb\u00e9m tinha uma mini varandinha para cada um dos quartos, com a mesma configura\u00e7\u00e3o lisboeta de mesinha com cadeiras espremid\u00edssimas num espa\u00e7o magro. Dava vista pros fundos de um outro pr\u00e9dio e para o p\u00e1tio desse pr\u00e9dio, com uma d\u00fazia de janelas protegidas por venezianas e cortinas. N\u00e3o era especialmente feio nem bonito, mas tinha l\u00e1 o seu charme.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>anfitri\u00e3o:<\/strong> Era uma mina chamada Annalisa, com fortes vibra\u00e7\u00f5es do leste europeu embora falasse italiano bel\u00edssimo e perfeito e provavelmente fosse apenas uma italiana loirinha de cabelo liso preso e olho claro e n\u00e3o uma tcheca b\u00falgara moldava curtindo um bronze adri\u00e1tico. N\u00e3o tinha um ingl\u00eas muito bom, mas foi sol\u00edcita e gente fina desde o come\u00e7o, agilizando carro pra nos buscar e levar no aeroporto e se habilitando a solucionar o problema da m\u00e1quina de lavar assim que ele se apresentou (inclusive tendo trocado mensagens por mais de uma hora com meu irm\u00e3o no chat do aplicativo do Airbnb num domingo de noite para tentar resolver a bronca \u00e0 dist\u00e2ncia). Boa pessoa.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>internet:<\/strong> Logo que chegamos, fluiu macio. Annalisa at\u00e9 esperou que um de n\u00f3s tivesse conseguido se conectar \u00e0 rede antes de ir embora. Domingo \u00e0 noite, todavia, absolutamente do nada, a internet peidou. Caiu e n\u00e3o voltou. Ligamos e desligamos o wi-fi dos celulares, reiniciamos o modem v\u00e1rias e v\u00e1rias vezes. Nada. Tinha uma luzinha l\u00e1 debaixo do \u00edcone de mundo que simplesmente n\u00e3o acendia. Tudo indicava ser uma daquelas panes eventuais que d\u00e1 num servi\u00e7o desses, seja porque rompe um cabo ou porque alguma outra coisa d\u00e1 um pau, ou s\u00f3 porque tinha uma manuten\u00e7\u00e3o programada naquela madrugada de domingo pra segunda. S\u00f3 que a gente n\u00e3o tinha como saber, e ficamos ali meio perdid\u00f5es tentando entender, buscando informa\u00e7\u00e3o em italiano no site da TIM ou da TRE e n\u00e3o encontrando coisa nenhuma. Sensa\u00e7\u00e3o meio estranha. De repente, l\u00e1 pelas tr\u00eas da manh\u00e3, voltou. Do nada. Nunca soubemos o que foi, mas tamb\u00e9m nunca mais deu problema.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>obra do local:<\/strong> O mais engra\u00e7ado \u00e9 que nas resenhas desse AirBnb tinha um pessoal reclamando do barulho de uma obra acontecendo no apartamento de cima ali por junho. Meu irm\u00e3o at\u00e9 tinha visto, mas pensou &#8220;vamos no come\u00e7o de outubro, j\u00e1 deve ter acabado.&#8221; Eu teria pensado o mesmo. Todavia, como ele, teria pensado errado. Como chegamos num s\u00e1bado, nos primeiros dois dias n\u00e3o pareceu que haveria uma obra de qualquer tipo ali &#8211; e porque haveria de haver? N\u00e3o faria mesmo o menor sentido. Acontece que havia. Na segunda ficou claro, quando, por volta de oito e meia da manh\u00e3, come\u00e7amos a ouvir pancadas surdas e cadenciadas penetrando o teto grosso e escorrendo at\u00e9 os nossos ouvidos. Por sorte, aparentemente eram apenas retoques: as batidas foram ouvidas apenas por um ou dois dias, embora de forma muito brutal.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>vizinhos:<\/strong> N\u00e3o eram muito percept\u00edveis esses vizinhos. Achei os italianos que conhecemos muito menos barulhentos do que o estere\u00f3tipo gosta de sugerir. Supostamente este era um bairro mais residencial de Roma, com ruas tomadas pelo pequeno com\u00e9rcio, carros absolutamente arrebentados e uma italianada braba caminhando pra cima e pra baixo. N\u00e3o captei nenhuma grande chinelagem ou gritaria nesta \u00e1rea (nem em qualquer outra, pra falar a verdade). O pessoal parecia apreciar o bom sil\u00eancio. Ao mesmo tempo, uma marca registrada eram as roupas, penduradas nas janelas de forma ostensiva (se bem que isso tamb\u00e9m era flagrante em absolutamente toda a cidade).<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>ganja:<\/strong> N\u00e3o lembro de ter sequer sentido o cheiro da ganja em Roma, mesmo quando nos metemos nas ruelinhas fervilhando de jovens na noite de Trastevere. Ser\u00e1 que os caras n\u00e3o curtem muito a erva l\u00e1? Se curtem, de onde ser\u00e1 que vem o grosso do bicho? Norte da \u00c1frica? Se for, deve ter mais hash que ganja l\u00e1. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei. N\u00e3o fa\u00e7o ideia.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>m\u00fasica:<\/strong> Como n\u00e3o tinha TV em casa acabamos n\u00e3o consumindo nada de m\u00fasica por tabela. Considero uma das grandes lacunas dessa viagem \u00e0 It\u00e1lia, embora eu j\u00e1 saiba de antem\u00e3o que, na m\u00e9dia, a m\u00fasica italiana \u00e9 uma merda.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>supermercado:<\/strong> Aqui a coisa come\u00e7ou a melhorar. Bem perto do nosso apartamento havia um bom supermercado local da marca PAM, que nos abasteceu quase que diariamente com p\u00e3es, frios, queijos, biscoitos, cerveja e ch\u00e1 gelado. Nesse super tinha um neg\u00f3cio muito bom chamado <em>pizza bianca<\/em>\u00a0que, na real, era um p\u00e3o quadrad\u00e3o, chato e fofo, nadando em \u00f3leo, excelente para a confec\u00e7\u00e3o do: sandu\u00edche. Adquirimos ao longo da semana bons salames e <em>prosciuttos<\/em>, bem como queijos de vaca e ovelha e uma manteiga pesada. Rolou ainda uns chocolatinhos del\u00edcia, uns sachezinhos de caf\u00e9 com aroma de avel\u00e3, uns biscoita\u00e7os extremos, mas o meu destaque tem que ir para as cervejas locais, que merecem um esmi\u00fa\u00e7o \u00e0 parte logo adiante.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>transporte p\u00fablico:<\/strong> Esse no come\u00e7o meio que assustou. Todo mundo dizia que a It\u00e1lia era foda, que era tudo uma bagun\u00e7a, e que o cara tinha que ficar ligado pra n\u00e3o ser roubado ou tomar um golpe. A primeira parte \u00e9 verdade: \u00e9 uma bagun\u00e7a, tudo. Nada \u00e9 muito auto-explicativo, o cara tem que ir pesquisando na internet uns blogs de viajante pra ir entendendo como funciona o bagulho. Agora, por exemplo, eu j\u00e1 nem lembro muito bem como era o esquema do metr\u00f4. O que eu lembro \u00e9 que um dia a gente foi na esta\u00e7\u00e3o que tinha ali perto do ap\u00ea e eu comprei os <em>biglietti<\/em> numa m\u00e1quina sem grandes mist\u00e9rios. O \u00fanico truque \u00e9 que todas as m\u00e1quinas tem desenhado do lado que formato de dinheiro elas aceitam, e nem todas aceitam notas (na real, que eu me lembre, nenhuma aceitou, mesmo as que supostamente deveriam). Se o turista come\u00e7a a se embananar, n\u00e3o demora muito pro espertalh\u00e3o local se oferecer pra ajudar (e a\u00ed sei l\u00e1 o que acontece, porque o turista aqui n\u00e3o deu sorte pro azar e quando esses malucos mandaram seu <em>hello may I help you sir<\/em> eu j\u00e1 mandava o meu <em>non grazie<\/em> da escapat\u00f3ria total e cortava o carcamano). Achei o metr\u00f4 bem limpo, simp\u00e1tico e tranquilo &#8211; exceto na hora do rush, quando a\u00ed vira um metr\u00f4 normal como em qualquer cidade grande do mundo: lotado pra caralho. F\u00e1cil de entender as linhas e esta\u00e7\u00f5es. Usamos tamb\u00e9m os <em>biglietti<\/em> nos trams &#8211; que achei ainda mais limpos, simp\u00e1ticos e tranquilos que os trens do metr\u00f4, com a vantagem de te deixarem assistir a cidade enquanto se deslocam, embora n\u00e3o haja nenhuma indica\u00e7\u00e3o de parada e o cara precise confiar nos mapas e instinto para descer no lugar certo. A \u00fanica inconveni\u00eancia da rede de transporte de Roma \u00e9 que se o cara t\u00e1 num lugar onde s\u00f3 chega tram, como Trastevere, por exemplo, e n\u00e3o comprou um bilhete pra fazer a viagem de volta, a\u00ed tem que se enfiar numa tabacaria e tentar desenrolar um italiano pra adquirir o produto (o que n\u00e3o chega a ser muito complicado, tamb\u00e9m). Se n\u00e3o me engano no metr\u00f4 tu enfia o biletinho na catraca e no tram tu enfia numa maquininha pra carimbar. Vale por algo como 100 minutos apos o in\u00edcio da primeira viagem.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>t\u00e1xi\/uber:\u00a0<\/strong>Em parte intimidado pela l\u00edngua, em parte desincentivado pela \u00f3tima oferta do transporte p\u00fablico local, n\u00e3o usamos nem t\u00e1xi nem Uber em Roma. Aparentemente o \u00fanico lugar em que se pega t\u00e1xi em Roma \u00e9 nos pontos; se o cara faz sinal na rua, eles n\u00e3o param. Isso foi o que eu li, mas na real n\u00e3o testei e acho que n\u00e3o vi. Nem prestei aten\u00e7\u00e3o. Uma coisa que fizemos, e foi bom: usamos um servi\u00e7o de transporte privado pra sair do aeroporto e voltar pra l\u00e1. Levando em conta que um t\u00e1xi de Fiumicino at\u00e9 a cidade custa de 50 euros pra cima, foi excelente ter desembolsado apenas 45 pelo mesmo trajeto sem nem precisar gastar o meu italiano inexistente com algum taxista potencialmente vigarista. N\u00e3o parece uma economia t\u00e3o enorme em termos absolutos, mas assim que atravessamos o port\u00e3o de desembarque tinha um maluco com uma plaquinha escrito &#8220;Czarnobai&#8221; (pena que estava sem bateria no celular pra fotografar) nos esperando, e no dia do voo pra Paris o tioz\u00e3o que nos levou chegou 15 minutos antes da hora combinada e disse que s\u00f3 estava nos avisando que j\u00e1 tinha chegado, e que estava a nossa disposi\u00e7\u00e3o quando quis\u00e9ssemos ir. Sem stress, sem confus\u00e3o, sem nenhum grau de tens\u00e3o. E dez euros mais barato que um t\u00e1xi. Achei estupendo.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>trago:<\/strong> Na minha cabe\u00e7a e por conta de algumas experi\u00eancias passadas, a ceva provavelmente n\u00e3o devia ser muito o forte da italianada tamb\u00e9m. Fora alguns t\u00edtulos maluc\u00f5es do Birrificio del Ducato que havia consumido por aqui, tudo que eu conhecia de cerveja italiana eram umas lager e umas pilsen padr\u00e3ozinho, de modo que n\u00e3o estava esperando nada. Todavia, que boa surpresa me fizeram as cervejas italianas. Pelo jeito a onda artesanal e gourmet aportou com for\u00e7a no mercado local, com reflexos vis\u00edveis tanto nos r\u00f3tulos industriais quanto nos semi caseiros. Logo de cara, na nossa primeira refei\u00e7\u00e3o, tomamos uma tal de Gran Riserva Doppio da Peroni, curiosamente identificada apenas como &#8220;artigianale&#8221; no card\u00e1pio do <em>ristorante<\/em> embora seja fortemente comercial. Mesmo assim j\u00e1 era uma pedrada, sobretudo comparada \u00e0s portuguesas. N\u00e3o lembro de ter tomado nada muito memor\u00e1vel nos restaurantes nos dias seguintes, mas levamos pra casa o que achamos no supermercado, basicamente r\u00f3tulos da Moretti e da Poretti (creia, embora, pra ser justo, essa segunda se chame Angelo Poretti). Da primeira tomamos duas que, descobriria mais tarde, fazem parte da linha <em>Le Regionali,<\/em>\u00a0de cervejas que levam na receita algum ingrediente local de algum cafund\u00f3 da It\u00e1lia. A Moretti alla Toscana, por exemplo, era feita com variedades espec\u00edficas de trigo (um tal de\u00a0<em>trigo emmer<\/em>) e cevada (diz que \u00e9 <em>orzo di Maremma<\/em>); j\u00e1 a perfumosa, refrescante e deliciosa alla Friulana (my fave) levava ma\u00e7\u00e3s na receita. Dei uma r\u00e1pida olhada no site da marca e vi que essa \u00faltima os caras nem est\u00e3o mais fazendo. Que bom que eu tomei. No mais, tamb\u00e9m gostei bastante das cervejas da Angelo Poretti, mais lupuladas e fortonas. Tomei uma 5 Luppoli Bock Chiara e uma 6 Luppoli Bock Rossa. Ambas deliciosas, amargosas, mais com cara de IPA que de BOCK, se \u00e9 pra falar nesses termos.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Merece um subcap\u00edtulo \u00e0 parte o espetacular brewpub <strong>Ma Che Si\u00e8te Venutti A Fa?<\/strong>, uma portinha toda cheia de adesivo que leva pruma gruta escura localizada numa parede ancestral no bairro bo\u00eamio e charmosinho do\u00a0 Trastevere. L\u00e1 dentro umas VINTE torneiras enfileiradas, servindo cervejas ef\u00eameras, bizarras ou alien\u00edgenas como a norueguesa Lervig Hazy Days, a americana The Veil We Ded Mon e as locais Vento Forte IPA, Ritual Lab Tupamaros e Extraomnes Quadrupel. S\u00f3 pela brincadeira, joguem esses nomes no RateBeer: tudo na base de 98, 99 pontos de 100 poss\u00edveis. Agora imagina isso ON TAP. Que trago excelente, meus amigos. Sen\u00e3o o melhor, definitivamente um dos tr\u00eas melhores de toda a minha vida. Eu e o Nes, bem louc\u00f5es, subimos o Gianicolo, mijamos clandestinamente nas redondezas do Orto Botanico e depois ficamos azucrinando pelos mirantes da colina antes de descer pra tomar a saideira.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>rangos:\u00a0<\/strong>Essa foi, disparada, minha maior decep\u00e7\u00e3o nessa viagem. Passei a vida inteira comendo comida italiana e ouvindo que a It\u00e1lia era o lugar onde melhor se comia em todo o mundo mas, pelo menos no tocante a Roma, e pelo menos na minha experi\u00eancia, isso n\u00e3o se mostrou verdadeiro. N\u00e3o que tenha sido terr\u00edvel: muito pelo contr\u00e1rio. Comi muito bem na It\u00e1lia. S\u00f3 n\u00e3o comi no n\u00edvel extremamente elevado que eu estava me preparando pra comer. Talvez uma forma melhor de dizer o que eu disse seja afirmando que j\u00e1 comi comida italiana melhor ou, no m\u00ednimo dos m\u00ednimos, no mesmo n\u00edvel em S\u00e3o Paulo e no Rio Grande do Sul. Alguns amigos, ao serem confrontados com essa inc\u00f4moda realidade me disseram que Roma realmente n\u00e3o \u00e9 um bom lugar para se comer de forma espl\u00eandida, e que os verdadeiros tesouros gastron\u00f4micos da It\u00e1lia est\u00e3o escondidos nas cidades do interior e, naturalmente, na casa dos italianos. Mas s\u00f3 posso falar do que vi e comi, e o que vi e comi n\u00e3o me impressionou muito (exceto pelas j\u00e1 supracitadas moscas e pelas generosas pe\u00e7as de carne expostas de forma quase obscena nas vitrines). Dito isto, nosso primeiro contato com a culin\u00e1ria local foi numa pequena cantina chamada Da Roberto e Loretta, onde chegamos depois das 15h e fomos relegados a uma parte isolada do restaurante enquanto habitu\u00e9s comemoravam o que me pareceu um anivers\u00e1rio de gente mais velha em algum dos outros c\u00f4modos. Ningu\u00e9m falava ingl\u00eas, e tivemos que nos virar para pedir boas massas e um porco assado com batatas. Lembro que tinha coelho no menu, mas acabei optando por um <em>tonnarelli cacio e pepe<\/em>, por saber tratar-se de um dos pratos mais famosos da culin\u00e1ria romana: massa com queijo pecorino e pimenta. Foi lendo esse card\u00e1pio que fomos apresentados ao conceito italiano da entrada, primeiro e segundo pratos &#8211; embora n\u00e3o tenhamos entendido muito bem naquele momento. Aparentemente, a maneira tradicional de comer uma refei\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia envolve uma s\u00e9rie de etapas, que incluem aperitivos, entradas, dois pratos principais, acompanhamentos, saladas, frutas, queijos, sobremesa, caf\u00e9 e digestivo. A maioria dos restaurantes opera dessa forma ou, no m\u00ednimo, oferecendo op\u00e7\u00f5es de <em>antipasto<\/em>, <em>primo<\/em> e <em>secondo piatto<\/em> e <em>dolce<\/em>. Todavia, quem n\u00e3o tem tempo, saco, bolso ou est\u00f4mago pra todo esse banquete pode simplesmente comer qualquer dos pratos na sua vers\u00e3o solo. Pelo que entendi, em alguns lugares, isso faz com que o prato \u00fanico seja servido numa vers\u00e3o maior do que seria caso o cliente tivesse optado pela sequ\u00eancia &#8211; mas n\u00e3o tenho certeza absoluta disso. Voltei a comer um <em>cacio e pepe<\/em> no \u00faltimo dia de viagem, cobrindo uma massa no formato de bolinhas bem pequenas chamada <em>gnocchini<\/em> (literalmente, um &#8220;nhoquinho&#8221;), num restaurante bem menos tradicional do que o primeiro, todavia com resultados (sabor e pre\u00e7o) muito pr\u00f3ximos (sen\u00e3o id\u00eanticos). Tamb\u00e9m comi bastante sandu\u00edche em Roma: em casa, nuns buracos meio aleat\u00f3rios perto da parte mais tur\u00edstica da cidade e no not\u00f3rio Pane e Salame, supostamente um dos melhores da cidade. Todos eram bons. N\u00e3o tinha como n\u00e3o serem: os p\u00e3es eram bons, os frios eram bons, o que poderia dar errado? At\u00e9 o tomate seco em Roma era bom, e olha que estamos falando de um dos ingredientes que mais detesto no mundo. Outra coisa t\u00edpica de Roma da qual me alimentei foi o famoso <em>saltimbocca<\/em>: filezinhos de vitela enrolados em presunto cru e s\u00e1lvia e fritos numa solu\u00e7\u00e3o de vinho branco e manteiga. Esse tro\u00e7o era preza. Bah. A\u00ed eu tirei meu chap\u00e9u. Vitela tamb\u00e9m comi um outro dia numa vers\u00e3o ensopada com batatas e coberta por um molho cremoso marrom, mas nada de muito acachapante dessa vez. Um risoto fraco de polvo e marisco um dia, uma carbonara (literalmente) criminosa um outro (mais sobre isso em <strong>tourist trap<\/strong>) e meio que foi isso. O destaque curioso e inesperado vai para o Studio Pasta, um lugar que, apesar do nome, parecia ser forte pela venda de pizzas em fatia, mas, no fim, acabou se revelando uma boa experi\u00eancia autenticamente regional. S\u00f3 italianos frequentavam o local, e a maioria estava se alimentando da sua maneira tradicional e nababesca, enfileirando uma sequ\u00eancia intermin\u00e1vel de pratos. Como comeu aquela italianada aquela noite. Barbaridade. E muitos ainda sa\u00edam pra fumar entre uma etapa e outra da refei\u00e7\u00e3o. De nossa parte, pedimos uma prancha de frios bem generosa, com muito salame, presunto cru e diversos tipos de queijo; uma por\u00e7\u00e3o de legumes empanados e fritos bastante excelente; um bolinho de arroz t\u00edpico da regi\u00e3o chamado <em>suppl\u00ec<\/em>; e um exemplar da c\u00e9lebre pizza romana, com a massa mais fina do que costumamos comer no Brasil. Nada mau. Por fim, vale conferir uma men\u00e7\u00e3o honrosa a pelo menos um elemento da gastronomia italiana que sobreviveu gloriosamente \u00e0 sua fama: o caf\u00e9. Sempre fort\u00edssimo e muito gostoso, fechou todas as refei\u00e7\u00f5es com qualidade extrema. Foi o sabor, perfume e sensa\u00e7\u00e3o que mais deixou saudade no quesito culin\u00e1rio.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>doces:<\/strong> Aqui os romanos se redimiram com tranquilidade. Como fazem doces bons, esses desgra\u00e7ados. Comemos <em>tiramis\u00f9<\/em>\u00a0tradicional no Studio Pasta e algumas receitas mirabolantes, com banana e frutas vermelhas no Pompi e tudo era: absolutamente fatal. As tortas do I Vitelloni, o salame de chocolate, a <em>panacotta<\/em> e at\u00e9 os morangos com nata do Tonnarello (pico aberto supostamente desde 1876): s\u00f3 pedras. Se a comida salgada n\u00e3o me deixou com o famoso gostinho de quero mais, as sobremesas fizeram isso com larga folga.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>tourist trap: <\/strong>Um dia a gente estava andando h\u00e1 horas ali pelo centrinho, bateu fome, bateu cansa\u00e7o e a solu\u00e7\u00e3o foi tentar achar o lugar menos horr\u00edvel pra dar uma sentada, beber e comer alguma coisa tomando o menor tufo poss\u00edvel. Na regi\u00e3o em que est\u00e1vamos, altamente tur\u00edstica, a maioria dos lugares tinha card\u00e1pio de pl\u00e1stico e cartaz com foto das comidas na frente &#8211; dois dos tr\u00eas principais sinais de furada na Europa. Esse n\u00e3o tinha nenhum dos dois, mas tinha o terceiro: o gar\u00e7om que fica abordando o turista desavisado na rua na tentativa de atra\u00ed-lo para dentro. Acabamos cedendo. O lugar se chamava Osteria dell&#8217;Alloro. Se quiser ter uma ideia do tamanho da encrenca, jogue este nome no Trip Advisor e leia algumas das resenhas (j\u00e1 alerto que a nota m\u00e9dia \u00e9 2,5 e que mais de 40% das 600 avalia\u00e7\u00f5es o classificam como &#8216;horr\u00edvel&#8217;). Logo que entramos, um gord\u00e3o italiano nos fez sentar, encostou uma mesinha de madeira ao lado da nossa e deitou um peix\u00e3o sobre ela, perguntando algo como &#8220;ent\u00e3o hoje vamos comer peixe?&#8221;, enquanto manuseava uma faca sugerindo poss\u00edveis cortes. Como aqui \u00e9 Brasil, sentimos o abra\u00e7o e dissemos n\u00e3o de forma muito enf\u00e1tica. Ele come\u00e7ou a querer sugerir alguma das enormes pe\u00e7as de carne que estavam expostas na vitrine, mas, novamente, negamos, e exigimos o card\u00e1pio. Ao perceber que tinha advers\u00e1rios \u00e0 sua altura, o tramposo meio que nos largou de m\u00e3o, concentrando seus esfor\u00e7os numa numerosa fam\u00edlia americana, que adentrou com 8 ou 9 membros e saiu aceitando absolutamente tudo que ele ia oferecendo. Nosso card\u00e1pio demorou, mas chegou. Nele entendemos que o pre\u00e7o dos pratos n\u00e3o era assim t\u00e3o catastr\u00f3fico &#8211; exceto pelos itens peixe, carne e couvert (que recusamos ainda antes de sentar, pra n\u00e3o ter erro). S\u00f3 nesse o cara j\u00e1 sa\u00eda morrendo em mais de 15 euros se bobeasse. N\u00e3o bobeamos. O brasileiro que entrou depois com um sorriso besta na cara, elogiou as carnes na vitrine dizendo &#8220;\u00f4 loco&#8221;, aceitou couvert, vinho e \u00e1gua mineral pra ele e pra mulher: sim, com certeza. N\u00e3o sei quanto foi a conta deles, mas certamente n\u00e3o foi bonito. Consultando o card\u00e1pio descobrimos que os peixes e pe\u00e7as de carne eram cobrados por peso: 5 euros a cada 100g. \u00c9 claro que o 5 estava em uma fonte enorme, vermelha, vendido como grande vantagem; e o 100g l\u00e1 embaixo, bem pequenininho, quase escondido num canto da p\u00e1gina. Suponho que os caras cobrem o pre\u00e7o pela pe\u00e7a inteira e depois sirvam apenas um naco &#8211; o que explica as fotos de contas de mais de 300 euros por casal no Trip Advisor. Com muito custo, conseguimos pedir nossos pratos: massas absolutamente ordin\u00e1rias, sem muito gosto ou brilho. Estavam molengas, claramente cozidas muito al\u00e9m do ponto, e pareciam ter sido aquecidas no microondas (o que talvez tenha sido justamente o caso). Comemos, bebemos (cerveja um pouco acima do pre\u00e7o, mas nada de muito absurdo tamb\u00e9m) e pedimos a conta. Subitamente emergiu da cozinha um gar\u00e7om brandindo uma bandeja repleta de doces que, \u00e0 primeira vista, at\u00e9 pareciam bonitos, mas, com uma observa\u00e7\u00e3o um pouco mais cuidadosa se mostravam envelhecidos e queimados de sol de tanto entra e sai. Tentaram botar algumas ta\u00e7as sobre a nossa mesa, mas n\u00e3o deixamos. Quando a conta chegou, era algo como 45 euros. Meu irm\u00e3o deu uma nota de 50. O gord\u00e3o ainda tentou meter a seguinte: &#8220;Est\u00e1 certo assim?&#8221;. Todavia o Brasil falou mais alto mais uma vez e meu irm\u00e3o respondeu com a testa franzida, chacoalhando a cabe\u00e7a e os dedos, vociferando v\u00e1rios n\u00e3os e logo em seguida a frase que aquele carcamano menos queria ouvir: &#8220;Me traz o meu troco.&#8221; O cara demorou um pouco e, quando voltou, com uma cara de cu tremenda, literalmente arremessou as moedas sobre a mesa, e nem respondeu <em>prego<\/em> quando mandamos o <em>grazie<\/em>, <em>buona giornata<\/em> e <em>arrivederci<\/em>\u00a0de praxe na despedida.\u00a0 Levando tudo em conta, at\u00e9 que n\u00e3o fomos t\u00e3o mal.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>programas tur\u00edsticos: <\/strong>Como n\u00e3o conhec\u00edamos absolutamente nada de Roma e t\u00ednhamos vivido boa experi\u00eancia em Sintra, nos pareceu que a melhor coisa a fazer seria passar o primeiro dia visitando os principais pontos tur\u00edsticos da cidade num daqueles \u00f4nibus tur\u00edsticos <em>hop on hop off<\/em>. A ideia era ir registrando os lugares que mais nos chamassem a aten\u00e7\u00e3o num caderninho para retornar nos dias seguintes, e foi precisamente o que fizemos. \u00c9 claro que em uma semana na cidade mal deu pra arranhar a superf\u00edcie. Roma talvez seja a cidade no mundo com mais atrativos a c\u00e9u aberto. Chega a ser surreal de tanto monumento, ru\u00edna, est\u00e1tua, pal\u00e1cio e igreja. Bem perto do nosso AirBnb, por exemplo, ficava o <strong>Coliseu<\/strong>. Bem perto talvez seja um pouco de exagero: dava uns 20 minutos caminhando. N\u00e3o s\u00f3 ele como os arredores s\u00e3o bem impressionantes, tanto pelas dimens\u00f5es quanto pela idade. Que tro\u00e7o fenomenal aquilo tudo. \u00c9 muito incr\u00edvel ficar imaginando como constru\u00edram edifica\u00e7\u00f5es t\u00e3o altas, com tantos detalhes esculpidos, com tanta precis\u00e3o geom\u00e9trica &#8211; e, acima de tudo: capazes de durar tanto tempo. N\u00e3o chegamos a entrar no Coliseu em si. Filas quilom\u00e9tricas e a impress\u00e3o de que olh\u00e1-lo de fora, em meio \u00e0 paisagem urbana da cidade atual, j\u00e1 era impactante o suficiente. Al\u00e9m do mais, vi depois na internet que era s\u00f3 um monte de escada pra subir e um monte de pedra no meio dumas gramas pro cara olhar l\u00e1 dentro. Chegamos bem perto, demos a volta, observamos as diferen\u00e7as de arquitetura. Ali por volta tem tamb\u00e9m os restos do F\u00f3rum Romano e do Circus Maximus, mas n\u00e3o exploramos muito &#8211; o primeiro por conta da mesma fila imensa e (admito) nosso desconhecimento e desinteresse (no fim das contas tudo bem, era meio que um monte de pedra e coluna e esqueleto de pr\u00e9dio mesmo, e dava pra ver de longe do outro lado, coisa que fizemos uns dias depois); o segundo porque o que foi outrora uma pistinha de corrida onde as bigas tiravam altos rachas hoje em dia \u00e9 apenas um are\u00e3o meio feio, que lembra um pouco as mem\u00f3rias que tenho do Ararigb\u00f3ia (descobri a exist\u00eancia desse G mudo na Wikipedia), um parque localizado entre os bairros o Petr\u00f3polis e o Jardim Bot\u00e2nico em Porto Alegre que tamb\u00e9m conta com um are\u00e3o meio feio. Diz que os romanos usam aquele espa\u00e7o hoje em dia pra correr e se exercitar. Eu achei meio fu\u00e9n.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>A parte da cidade que eu convencionei chamar de &#8220;centrinho&#8221; \u00e9 todo aquele peda\u00e7\u00e3o antiga\u00e7o cheio de <em>piazza<\/em>, pal\u00e1cio, igreja e fonte, mas a verdade \u00e9 que a quantidade absurda de turista meio que impede a frui\u00e7\u00e3o de quase tudo que h\u00e1 por l\u00e1. Nem consegui me aproximar do Panteon, por exemplo. A\u00a0<strong>Fontana di Trevi<\/strong> talvez seja o melhor resumo disso. Passa rigorosamente o tempo todo constantemente apinhada de turistas, \u00e9 um neg\u00f3cio realmente assustador. Muito dif\u00edcil at\u00e9 de chegar perto. Agora claro: \u00e9 um tro\u00e7o muito ic\u00f4nico e bonito. Umas est\u00e1tuas gigantes, imponentes, bem branquinhas, aquela \u00e1gua bem azul fluindo. S\u00f3 que a\u00ed tamb\u00e9m tem aquela gentarada vermelha de sol jogando moeda por cima dos ombros e meia d\u00fazia de guardinhas soando apitos e gritando em italiano com os turistas que, por ventura, estiverem fazendo algo de errado (como sentar em algum lugar que n\u00e3o pode, descer as escadas comendo sorvete ou tentar entrar na fonte). Tentamos regressar duas ou tr\u00eas vezes, em hor\u00e1rios diversos, mas sempre nos deparamos com o mesmo batalh\u00e3o de pessoas, que se estendia por toda a pra\u00e7a que circundava a fonte. Coloco nesse mesmo espa\u00e7o geogr\u00e1fico diversos outros bagulhos interessantes, como o Altar da P\u00e1tria (imenso e maravilhoso), a Piazza de Spagna (nh\u00e9) e o Largo da Torre Argentina (entre outros). Tudo \u00e9 muito antigo, muito grande e muito bonito, mas, em absolutamente todos esses lugares, a presen\u00e7a realmente massacrante de turistas d\u00e1 uma quebrada fudida na frui\u00e7\u00e3o. \u00c9 quase decepcionante. Uma exce\u00e7\u00e3o foi o Castelo de Santo \u00c2ngelo, que s\u00f3 vimos por fora, tanto de longe quanto de perto. Como tinha bem menos gente \u00e0s voltas, at\u00e9 que deu pra dar uma contempladinha. Do outro lado do rio Tibre, antes de atravessar a ponte que leva at\u00e9 ele, a paisagem \u00e9 bem bonita, por sinal. Lembra um pouco Paris.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Agora, o que realmente valeu a pena em Roma em termos de pontos tur\u00edsticos foram tr\u00eas coisas: a) as igrejas; b) o bairro de Trastevere; c) o Vaticano. Entramos aleatoriamente em algumas igrejas no nosso caminho, e todas foram muito, mas muito impressionantes mesmo. Se eu, em pleno s\u00e9culo XXI, com acesso a internet, tendo sobrevivido semi ateu a quase 20 anos de educa\u00e7\u00e3o intensa em col\u00e9gio de freira, profundamente imerso na cultura judaico-crist\u00e3 cheguei a balan\u00e7ar, s\u00f3 fico imaginando o que sentia o campon\u00eas m\u00e9dio de mil anos atr\u00e1s ao entrar num templo desses. O cara pisava naqueles mosaicos complexos de ladrilhos coloridos, sentia as vibra\u00e7\u00f5es daquelas enormes colunas, olhava praqueles tetos ricamente esculpidos, aqueles vitrais gigantescos, aquelas pinturas monstruosas e n\u00e3o tinha como n\u00e3o acreditar que Deus realmente existia. \u00c9 um tro\u00e7o muito assoberbante. Pra mim, as igrejas de Roma ganham f\u00e1cil de qualquer museu que eu tenha visitado no mundo. \u00c9 uma experi\u00eancia muito, mas muito extrema. A dica quente pra quem n\u00e3o tiver saco pra ficar 3h na fila pra dar um bico na Capela Sistina \u00e9 pegar um tram at\u00e9 Trastevere e, depois de se perder pelas maravilhosas ruelinhas antigas com ares medievais e comer um tro\u00e7o t\u00edpico num daqueles restaurantes de 200 anos de idade, se enfiar na <strong>Basilica di Santa Maria in Trastevere<\/strong>. Sem brincadeira, essa experi\u00eancia botou em cheque a minha f\u00e9 (ou, melhor dizendo, a falta dela). \u00c9 beleza demais, chega a dar um tilt no c\u00e9rebro. O melhor de tudo \u00e9 que &#8211; assim como a maioria das igrejas em Roma- o cara olha por fora e n\u00e3o d\u00e1 nada. A\u00ed tu entra e j\u00e1 come\u00e7a a sentir o baque. Um sil\u00eancio reverente, uma aura de contempla\u00e7\u00e3o, admira\u00e7\u00e3o e choque. Fico s\u00f3 imaginando o que deve sentir quem \u00e9 cat\u00f3lico praticante &#8211; nem precisa ser muito fervoroso. Acho que d\u00e1 pra ficar um ano voltando l\u00e1 todo dia e, mesmo assim, tu n\u00e3o consegue apreender todos os detalhes. Chega a ser quase um exagero. E como se n\u00e3o fosse suficiente, a igreja ainda tem umas duas ou tr\u00eas capelinhas, totalmente diferentes entre si, cheias de pequenos tesouros pr\u00f3prios. As pinturas do altar e das paredes s\u00e3o lindas, as est\u00e1tuas de santos beiram o inacredit\u00e1vel e aquele teto, todo esculpido no ouro, \u00e9 um tro\u00e7o de outro planeta. As fotos que se encontra na internet n\u00e3o d\u00e3o conta nem de 1% da sensa\u00e7\u00e3o de estar l\u00e1, vendo aquilo de perto, sentindo os cheiros, os sons, a temperatura. O peso simb\u00f3lico e hist\u00f3rico desaba nas tuas costas \u00e0s toneladas. \u00c9 realmente brutal. Sobre o Trastevere em si, al\u00e9m do n\u00famero bem mais administr\u00e1vel de turistas e a sensa\u00e7\u00e3o de estar numa cidade do interior, ainda vale citar o Gianicolo, uma colina extrema que oferece ao corajoso que vencer as centenas de degraus e lombas uma vista acachapante de Roma, com algumas estatuas, fontes e monumentos de brinde. Subi bem louc\u00e3o de ceva l\u00e1 com meu irm\u00e3o, e foi um dos pontos altos de toda a viagem. Tem uns dois ou tr\u00eas mirantes, e em todos o que o cara mais v\u00ea \u00e9 o laranja dos telhados e o redondo das ab\u00f3badas das igrejas contrastando com o branco dos pr\u00e9dios e o verde das copas das \u00e1rvores. Sobre o Vaticano, vale um cap\u00edtulo \u00e0 parte, logo a seguir.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>maloqueiragem: <\/strong>Uns anos atr\u00e1s, a Kizzy, namorada do meu irm\u00e3o, tinha levado sua av\u00f3 a Roma s\u00f3 pra ver o Papa de perto &#8211; desejo que, curiosamente, era o mesmo da Sandrinha, nossa excelent\u00edssima progenitora. Na \u00e9poca, pra garantir que nada daria errado, ela seguiu rigorosamente o que manda a cartilha tur\u00edstica, que basicamente consiste no seguinte: o cara manda um FAX (n\u00e3o \u00e9 carta, n\u00e3o \u00e9 e-mail, n\u00e3o \u00e9 telefonema) pro Vaticano informando a data em que pretende assistir a chamada Audi\u00eancia Papal &#8211; que acontece todas as quartas-feiras. Em at\u00e9 dois meses, o Vaticano responde esse fax. Com essa resposta impressa, o cara vai at\u00e9 o Vaticano na v\u00e9spera do evento, procura um lugar espec\u00edfico l\u00e1 onde fica a Guarda do Vaticano (ou algo assim) e troca esse papel por uma esp\u00e9cie de convite que, pelo que entendi, depois pode ser trocado por um certificado (um neg\u00f3cio bem bonito at\u00e9, parece um diploma de faculdade; imagino que pra quem \u00e9 realmente cat\u00f3lico deva ser quase como um trof\u00e9u). Teoricamente \u00e9 esse documento que garante o acesso do cara \u00e0 uma \u00e1rea cheia de cadeiras na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro no dia do evento. Todavia, ap\u00f3s ter vivido a experi\u00eancia de fato, Kizzy relatou o seguinte: &#8220;\u00c9 uma tremenda bagun\u00e7a, tem gente com documento, sem documento, ningu\u00e9m te informa nada e, se tu quiser arriscar, d\u00e1 pra ir na cara dura e tudo bem.&#8221; Foi esse o caminho que escolhemos percorrer. Assim, na quarta-feira, acordamos \u00e0s 6 da matina, tomamos um caf\u00e9 caprichado e pegamos o primeiro metr\u00f4 at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o que nos largaria mais perto do Vaticano. Chegamos l\u00e1 antes das 7h e j\u00e1 havia gordas filas formadas. Precavidos, t\u00ednhamos visitado o Vaticano uns dias antes para reconhecer o terreno, e percebemos que o acesso \u00e0 Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro (teoricamente um lugar onde poder\u00edamos estar sem portar nenhum tipo de ingresso) estava bloqueado. Notamos que as pessoas que estavam nas filas conversavam entre si, desorientadas, tentando entender onde deveriam ficar. Algumas traziam na m\u00e3o folhas impressas com c\u00f3digos de barra e QR codes, outras brandiam o convite dentro de um envelope verde. Havia p\u00e2nico e confus\u00e3o no ar. N\u00e3o havia ningu\u00e9m para orientar a forma\u00e7\u00e3o das filas ou tirar d\u00favidas, e as pessoas entravam e sa\u00edam delas sem saber direito o que fazer. Por via das d\u00favidas, entramos numa delas tamb\u00e9m. Na pior das hip\u00f3teses, pensamos, chegar\u00edamos a um ponto em que algu\u00e9m nos barraria e daria algum tipo de informa\u00e7\u00e3o. Nossa fila come\u00e7ou a fluir bem, e notamos que as pessoas mostravam seus documentos variados para os guardinhas que controlavam o acesso. Eles, por sua vez, ignoravam solenemente os pap\u00e9is, e se concentravam em revistar bolsas e mochilas e passar o detetor de metais. Era apenas uma barreira de seguran\u00e7a. Vencida esta barreira, est\u00e1vamos na pra\u00e7a. Caminhamos at\u00e9 um peda\u00e7o e vimos que outras filas enormes estavam se formando. Num primeiro momento, decidimos n\u00e3o entrar em nenhuma delas, conformados em assistir a cerim\u00f4nia de p\u00e9. Eu mesmo tinha visto uns v\u00eddeos na internet e descoberto que o melhor lugar para ver o Papa de perto era justamente ali, de p\u00e9, atr\u00e1s dos cord\u00f5es de isolamento &#8211; posto que ele faria um percurso por entre os fi\u00e9is em cima do Papa-M\u00f3vel antes de dar in\u00edcio \u00e0 missa, passando bem por ali. Meu irm\u00e3o, mais esperto que eu, achou que dever\u00edamos entrar na fila de qualquer jeito e, assim que uma delas come\u00e7ou a se mexer, fizemos isso. N\u00e3o deu nem dois minutos e um cara vestindo uma roupa toda bufante com ares de autoridade come\u00e7ou a gritar em italiano, interrompeu a fila exatamente no casal oriental que ia \u00e0 nossa frente e conduziu todo mundo a partir daquele ponto at\u00e9 uma outra fila, do outro lado da pra\u00e7a. L\u00e1 chegando, vimos a It\u00e1lia se manifestar em toda sua grandeza: uma bagun\u00e7a do caralho. Em vez das pessoas ficarem umas atr\u00e1s das outras, todo mundo come\u00e7ou a querer passar na frente dos outros, criando um efeito &#8220;sa\u00edda de jogo de futebol&#8221; ou &#8220;hora do rush no metr\u00f4&#8221;. Essa concentra\u00e7\u00e3o de gente ia se afunilando em dire\u00e7\u00e3o a tr\u00eas m\u00e1quinas de raio-x, onde alguns soldados do ex\u00e9rcito faziam a revista final, garantindo o acesso \u00e0 \u00e1rea onde ficavam as cadeiras. Levou algum tempo, foi um pouco confuso, mas passamos por mais essa barreira sem grandes desafios. Sem ningu\u00e9m para nos orientar ou impedir, caminhamos tranquilamente at\u00e9 a fileira de cadeiras que ficasse mais pr\u00f3xima do cord\u00e3o de isolamento. Infelizmente n\u00e3o conseguimos sentar na primeira, j\u00e1 tomada por uma trupe de velhos asi\u00e1ticos, mas a segunda ficou de \u00f3timo tamanho, posto que quando o Papa finalmente passou, duas ou tr\u00eas vezes, \u00e0 milh\u00e3o, em cima do seu carro, conseguimos v\u00ea-lo a uma dist\u00e2ncia rid\u00edcula, de uns 3 ou 4 metros, no m\u00e1ximo. Cheguei a gritar DALE GR\u00caMIO pra ver se ele me olhava, mas o castelhano n\u00e3o se abalou. Um ponto alto desse momento foi quando Sandrinha resolveu subir em cima da cadeira pra ver melhor, ato que foi imediatamente reprimido por um soldado (e ignorado por ela). Ato cont\u00ednuo, TODAS as pessoas resolveram fazer o mesmo ao mesmo tempo, o que fez com que o soldado desistisse da miss\u00e3o, passando a responsabilidade pra mim e pro meu irm\u00e3o. Com a firmeza de nossos cores jovens bem malhados pela gin\u00e1stica, fornecemos sustento a algumas malaias e francesas empolgadas, al\u00e9m da pr\u00f3pria Sandrinha, oferecendo nossos bra\u00e7os como apoio. Depois disso foi meio foda. A participa\u00e7\u00e3o do Papa na coisa toda \u00e9 ler umas cinco p\u00e1ginas da B\u00edblia, em italiano. Uns dez ou quinze minutos. Em seguida vem uma verdadeira multid\u00e3o de padres traduzindo o que ele disse em v\u00e1rias l\u00ednguas (ingl\u00eas, espanhol, portugu\u00eas, franc\u00eas, alem\u00e3o &#8211; foi a\u00ed que aprendi que &#8216;alem\u00e3o&#8217; em italiano \u00e9 <em>tedesco<\/em> -, \u00e1rabe, russo, alguma l\u00edngua do leste europeu que julguei ser polon\u00eas e outra asi\u00e1tica que julguei ser chin\u00eas). Tamb\u00e9m h\u00e1 um longo trecho em que esse mesmo monte de padre presta rever\u00eancia a todas as caravanas de dezenas de par\u00f3quias espalhadas pelo mundo que marcam presen\u00e7a l\u00e1 naquele dia. Ou seja: de mais de duas horas de cerim\u00f4nia, o Papa fala mesmo menos de 10% do tempo. H\u00e1 ainda um \u00faltimo momento, em que o Papa pede para que se mentalize os entes queridos e amigos para que eles recebam a b\u00ean\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 dada naquele momento. Mesmo n\u00e3o sendo exatamente crist\u00e3o, mentalizei uns e outros ali. Vai que. De todo modo, foi uma \u00f3tima experi\u00eancia. A felicidade que proporcionamos \u00e0 Sandrinha era muito palp\u00e1vel. Nossa miss\u00e3o estava cumprida. Aquilo valeu a viagem e nos encheu de ternura. Imagino que ela tenha sentido coisa parecida todas as vezes que nos proporcionou alguma alegria similar, como um presente muito desejado num anivers\u00e1rio ou Natal, ou a nossa primeira viagem de avi\u00e3o, quando \u00e9ramos pequenos. Foi pouco, ridiculamente pouco, quase nada. Mas eu senti (e sei que o Nes tamb\u00e9m) como se a gente estivesse retribuindo um milion\u00e9simo de tudo que ela fez por n\u00f3s ao longo da vida.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>dificuldades de l\u00edngua: <\/strong>De pronunciadas a extremas. Se o cara vai pra It\u00e1lia sem falar nem entender nada de italiano, a experi\u00eancia pode dar uma boa murchada. \u00c9 claro que de vez em quando tu encontra algu\u00e9m que fala um ingl\u00eas muito sofr\u00edvel e com sotaque carregado, mas s\u00f3 nos lugares mais tur\u00edsticos e, mesmo assim, nem sempre. Em v\u00e1rios e v\u00e1rios momentos me vi dependendo apenas do meu poder de dedu\u00e7\u00e3o somando a um min\u00fasculo conhecimento de italiano para me salvar. Verdade seja dita: ali pelo quarto ou quinto dia, de tanto ouvir as pessoas falando, alguma coisa o cara pega. Ainda mais aquele italiano utilit\u00e1rio do dia-a-dia, de <em>bon giorno<\/em> e <em>arrivederci<\/em>, de restaurante e transporte p\u00fablico. E ainda mais pra quem tem como base uma l\u00edngua latina, e alguma proximidade com os fonemas e sotaques do italiano por conta de uma s\u00e9rie de fatores (no meu caso: morar no Rio Grande do Sul, frequentar a Serra, visitar S\u00e3o Paulo, ter um m\u00ednimo de curiosidade por outras l\u00ednguas e culturas). Volta e meia algu\u00e9m at\u00e9 dizia &#8220;bravo&#8221; quando me ouvia falando. Mas fico pensando que prum americano ou prum alem\u00e3o deve ser bem casca a coisa. De todo modo, dito isto, a m\u00edmica opera milagres, e \u00e9 muito comum o surgimento de interl\u00ednguas instant\u00e2neas quando a comunica\u00e7\u00e3o se faz mister: Sandrinha, por exemplo, conseguiu recuperar um tubo de bloqueador solar com a seguran\u00e7a na sa\u00edda do Vaticano e comprar uma esp\u00e9cie de poncho numa loja sem falar uma palavra de italiano. Ou seja: o cara se vira.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>odores: <\/strong>Espantosamente, apesar do n\u00famero elevado de moscas em ambientes aliment\u00edcios, n\u00e3o lembro de nenhum cheiro forte em Roma. Mesmo umas casas de frios com aqueles queijos velhos e aqueles presuntos escuros na janela n\u00e3o emitiam fragr\u00e2ncias pungentes. N\u00e3o lembro, tamb\u00e9m, de haver cheiro de mijo nas ruas, mesmo nos becos \u00e0s voltas do Ma Che Si\u00e8te Venuti a Fa?, possivelmente o lugar mais prop\u00edcio de receber essa manifesta\u00e7\u00e3o. Talvez possa falar do cheiro do caf\u00e9, ou dos p\u00e3es assando em alguma ocasi\u00e3o espec\u00edfica, mas, caso tenha de fato acontecido, n\u00e3o foi marcante a ponto de eu recordar.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>seguran\u00e7a:<\/strong> Acho que nunca tinha visto tanto aparato de guerra nas ruas. Era muito dif\u00edcil se locomover por Roma sem avistar um jipe ou um blindado camuflado acompanhado por tr\u00eas soldados portanto metrancas nervosas. Num dos dias em que estivemos l\u00e1, li numa daquelas televis\u00f5es do metr\u00f4 que havia uma amea\u00e7a de bomba no Circus Maximus (o que soou extremamente rid\u00edculo, posto que \u00e9 um lugar aberto, praticamente ignorado pelos turistas, que se acumulam de forma catastr\u00f3fica a 200m dali, no Coliseu). N\u00e3o fui atr\u00e1s depois pra ver o que aconteceu de fato, mas imagino que algum mongol\u00e3o tenha esquecido uma mochila em algum lugar e todo mundo se cagou. Li depois que o Estado Isl\u00e2mico havia prometido atacar o centro da f\u00e9 cat\u00f3lica no mundo, o que talvez justifique a presen\u00e7a forte do ex\u00e9rcito nas ruas. De todo modo, n\u00e3o sei dizer se isso me fez sentir mais protegido ou amea\u00e7ado. Depois de uns dois dias os soldados meio que passaram a fazer parte da paisagem, o cara nem registra. Os golpistas africanos pareciam mais d\u00f3ceis do que os que encontrei ao longo dos anos em Paris, mas, a exemplo destes, toda vez que tentavam se aproximar para colocar a &#8220;pulseira da amizade&#8221; no meu punho eu abria um enorme sorriso e dava um drible gritando em bom portugu\u00eas algo como &#8220;aqui \u00e9 Brasil, meu querido,&#8221; o que, na minha experi\u00eancia, em 100% das vezes, sempre oferece salvo conduto e provoca sorriso animado de volta do golpista, que fala meia d\u00fazia de platitudes e parte em busca de um gringo menos malandro pra atacar. O grande risco em Roma, a meu ver, \u00e9 contrair o t\u00e9tano ap\u00f3s qualquer tipo de contato com um autom\u00f3vel. Nunca vi uma cidade com t\u00e3o pouco apre\u00e7o pelo carro como Roma. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que os caras enxergam seus ve\u00edculos realmente como utilit\u00e1rios, que te levam do ponto A ao ponto B, sem nenhuma vaidade ou s\u00edmbolo de status associado. Bateu, t\u00e1 andando, deixa assim. Tudo quebrado. Tudo amassado. V\u00e1rios e v\u00e1rios carros com fita crepe segurando uns peda\u00e7os. Um monte de ferrugem laranja aparente nas rachaduras. Carro com saco de pl\u00e1stico no lugar da janela do passageiro, para-brisa trincado. Um tro\u00e7o bem impressionante. Perto de Roma, os carros de Buenos Aires s\u00e3o umas limusines.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>volume de turistas:<\/strong> Absolutamente brutal. Se o cara vai pra Paris e acha que l\u00e1 tem muito turista, melhor nunca botar os p\u00e9s em Roma (e dizem que Veneza \u00e9 ainda pior). Isso que fomos em outubro, teoricamente durante a baixa temporada. N\u00e3o quero nem pensar como \u00e9 aquilo no ver\u00e3o. S\u00e3o, literalmente, multid\u00f5es de turistas percorrendo as ruelas e pontos hist\u00f3ricos. \u00c9 tanta gente junta que o cara acaba se sentindo constrangido de estar ali, de ser mais um ajudando a deixar aquela linda cidade cada vez menos habit\u00e1vel. \u00c0s voltas do Coliseu, por exemplo, era ruim at\u00e9 de caminhar. Como provavelmente deve ser assim o ano inteiro, cheguei a sentir um pouco de pena de quem tem que viver l\u00e1, levantar de manh\u00e3 e pegar condu\u00e7\u00e3o pro trabalho, encontrar um lugar ao meio-dia pra almo\u00e7ar. Talvez seja por isso que os romanos fecham tudo por volta do meio-dia (at\u00e9 mesmo alguns restaurantes) e s\u00f3 abrem depois das tr\u00eas (dessa eu n\u00e3o sabia, ali\u00e1s; pensei que <em>siesta<\/em> era s\u00f3 na Espanha). Al\u00e9m dos turistas, ainda h\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o paralela de aproveitadores &#8211; no bom e no mau sentido. Imagino que haja golpistas e punguistas ali no meio (embora n\u00e3o tenha visto nada que sugerisse isso), mas o mais comum mesmo s\u00e3o as centenas de vendedores de badulaques (em grande maioria indianos) e os guias a p\u00e9, gente que te aborda em diversas l\u00ednguas oferecendo o que parece ser algum tipo de tour comentado. Toda essa multid\u00e3o deixa o cara muito confuso num primeiro contato. N\u00e3o d\u00e1 pra saber direito quem \u00e9 efetivamente licenciado (todo mundo usa algum tipo de colete ou crach\u00e1, mas de uns 20 tipos diferentes) e quem t\u00e1 esperando um ot\u00e1rio pra mamar uns euros. Mas isso \u00e9 o de menos. O que incomoda mesmo \u00e9 tu ser totalmente incapaz de prestar aten\u00e7\u00e3o num monumento qualquer porque, literalmente, a cada dois segundos, algu\u00e9m para na tua frente pra fazer uma selfie. Realmente cansa. Coitados dos moradores.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>aeroporto<\/strong>: N\u00e3o passamos muito tempo em Fiumicino. Na chegada as malas n\u00e3o demoraram e j\u00e1 tinha um motora previamente contratado nos esperando no desembarque. Na sa\u00edda chegamos mais cedo do que o necess\u00e1rio porque ach\u00e1vamos que as bagagens n\u00e3o estavam inclusas no pre\u00e7o da passagem (todavia estavam). Como sa\u00edmos bem cedo e n\u00e3o hav\u00edamos tomado caf\u00e9, aproveitamos esse tempinho que sobrou pra comer e beber algo no aeroporto e, nesse sentido, vale um destaque: a pizza, os sandu\u00edches e o caf\u00e9 que os caras vendiam l\u00e1 eram t\u00e3o bons quanto os encontrados na cidade (e com pre\u00e7os equivalentes). Talvez seja o aeroporto mais honesto em que j\u00e1 estive, o que me deixou bastante surpreso. Outro destaque vai para o espanhol que estava voltando pra casa com sua mulher, tr\u00eas crian\u00e7as, toda a bagagem inacreditavelmente volumosa que isso envolvia e, n\u00e3o satisfeito com isso, DUAS TVS DE TELA PLANA DE 48 POLEGADAS. Esse \u00e9 galo.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>presen\u00e7a ilustre:<\/strong> Conforme o supracitado, os africanos da pulseira da amizade s\u00e3o muito mais d\u00f3ceis e inocentes em Roma que em Paris, de modo que vivemos situa\u00e7\u00f5es muito interessantes com dois deles, ambas em Trastevere. O primeiro africano digno de nota era um cara muito magro, muito bem vestido (cal\u00e7a skinny preta, bons sapatos de bico fino de couro, um blus\u00e3o branco de gola rul\u00ea), muito bem aprumado (barba desenhada, dreads de tamanho m\u00e9dio) e cheiroso, tomando uma latinha de ceva e abordando os turistas de uma forma muito original: gritando a palavra NEGRO enquanto os olhava de forma amea\u00e7adora. Vimos ele abordar algumas pessoas assim, exigindo algum dinheiro logo em seguida. Todo mundo dava. Est\u00e1vamos alguns passos atr\u00e1s dele. L\u00e1 pelas tantas, ele nos percebeu e, provavelmente nos julgando americanos ou ingleses, tentou meter a t\u00e1tica do pavor. Rimos na cara dele e eu respondi, no mesmo tom: BRANCO, ao que ele riu muito e tentou exigir dez euros para tomar uma cerveja da mesma forma. Seguimos andando dizendo algo como &#8220;tu t\u00e1 de brincadeira, irm\u00e3ozinho, tu j\u00e1 t\u00e1 tomando uma ceva e \u00e9 tu quem mora na It\u00e1lia, \u00e9 tu quem tinha que dar esses dez euros pros brasileiros chinelos aqui&#8221;, ao que ele riu ainda mais e se afastou. O segundo africano digno de nota deu um pouco de pena, quando penso nisso. Ele nos viu bebendo na frente do Ma Che Si\u00e8te Venuti a Fa? e achou que ia vender uns an\u00e9is horrorosos pras nossas namoradas, todavia meu irm\u00e3o &#8211; j\u00e1 bem alcoolizado, at\u00e9 por ter aberto os trabalhos com uma QUADRUPEL &#8211; emendou uma longa conversa sobre como a mulher dele era al\u00e9rgica a OURO e que ele teve que devolver uns brincos que uma vez comprou pra ela, e o cara acabou desistindo da venda e ficou trocando uma ideia conosco. Era do Senegal, esse faixa. Quando dissemos que \u00e9ramos do Brasil ele tentou fazer uma brincadeira dizendo que tinha visto de longe que a gente era igual a ele (colando o bra\u00e7o dele no meu e apontando pros dois), e eu tentei meter outra, dizendo que na real ele tinha visto a nossa alma, que era negra (eu tamb\u00e9m j\u00e1 estava bem embalado), s\u00f3 que ele n\u00e3o entendeu em ingl\u00eas. Eu tentei falar em franc\u00eas, mas ele tamb\u00e9m n\u00e3o entendia &#8211; eu n\u00e3o sabia que &#8220;alma&#8221; era &#8220;\u00e2me&#8221;, tentei &#8220;spirit&#8221; com o \u00e9rre afrancesado, ele achava que a gente tava falando do SOL (???). Na saideira, ele ainda deixou uma pulseirinha comigo. Disse que n\u00e3o ia pagar por ela, ele insistiu e disse que era um presente porque eu era gente fina. Por via das d\u00favidas, guardei no bolso, n\u00e3o meti no pulso. Aqui \u00e9 Brasil. Vai que ele tava me marcando pra algum outro camarada bater uma carteira mais tarde? Vai saber? Melhor n\u00e3o brincar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sabia muito pouca coisa sobre Roma e a It\u00e1lia e, pra falar a verdade, n\u00e3o tive muito tempo nem pilha de pesquisar antes de viajar pra l\u00e1, de modo que chegamos meio no caga\u00e7o numa tarde de s\u00e1bado e fomos aprendendo sobre a cidade \u00e0 medida em que \u00edamos existindo e nos movimentando nela. &hellip; <a href=\"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/11\/29\/roma-scheda-tecnica\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;roma: scheda tecnica&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-581","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eurotrip-2017"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=581"}],"version-history":[{"count":14,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":611,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581\/revisions\/611"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}