{"id":572,"date":"2017-11-15T18:13:30","date_gmt":"2017-11-15T21:13:30","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=572"},"modified":"2017-11-16T15:59:31","modified_gmt":"2017-11-16T18:59:31","slug":"lisboa-ficha-tecnica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/11\/15\/lisboa-ficha-tecnica\/","title":{"rendered":"lisboa: ficha t\u00e9cnica"},"content":{"rendered":"<p>Ali pelo terceiro ou quarto dia em Portugal fiquei sabendo (e de uma maneira fortuita, lendo a minha timeline do Twitter) que naquelas terras a express\u00e3o &#8220;dar o peido mestre&#8221; significava &#8220;bater as botas&#8221;. A partir daquele instante me corroeu fundo a vontade de us\u00e1-la no mundo real. No dia seguinte, quando pagava as passagens do \u00f4nibus que nos levaria a \u00d3bidos, deu um problema no sistema de cobran\u00e7a e eu cheguei a ensaiar mentalmente umas tr\u00eas vezes dizer isso pro motorista-cobrador, mas, infelizmente, faltou coragem. Jamais o fiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>geografia:<\/strong> Lisboa se apresentou pra mim como uma cidade muito limpa, clara e tranquila. A tradicional folha outonal da Europa cobria o ch\u00e3o das ruas mais arborizadas, mas havia um n\u00edvel muito baixo de lixo mesmo nos aglomerados de juventude. O destaque vai para a institui\u00e7\u00e3o lisboeta por excel\u00eancia que \u00e9 a LOMBA. Ficamos sabendo que a cidade foi constru\u00edda em cima de sete colinas s\u00f3 quando j\u00e1 est\u00e1vamos l\u00e1, verdade que se torna muito evidente toda vez que tu tra\u00e7a no Google Maps uma caminhada de 850 metros e se v\u00ea levando o triplo do tempo esperado por conta das subidas e descidas extremas, em sequ\u00eancias improv\u00e1veis, \u00e2ngulos imposs\u00edveis, e todas pavimentadas com aquelas pedrinhas altamente escorregadias (que bom que n\u00e3o choveu, por sinal). De todo modo: cidade linda, apraz\u00edvel e saborosa. D\u00e1 muita vontade de voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>clima:<\/strong> Contrariando minhas expectativas, fez sol e calor todos os dias, com picos de quase 30 e vales n\u00e3o muito abaixo dos 16. Frio mesmo s\u00f3 no Cabo da Roca, uma fal\u00e9sia formid\u00e1vel localizada no ponto mais ocidental do continente, onde uma ventorreia louca trazia um perfume de mar at\u00e9 l\u00e1 em cima. Sempre viajei para a Europa entre setembro e outubro e, geralmente, isso significa um certo grau de frio (embora \u00e0s vezes fa\u00e7a um calorzinho de leve tamb\u00e9m). Em Portugal ele n\u00e3o se apresentou. Um c\u00e9u muito azul, um sol estalado que me provocou um senhor torr\u00e3o (pesco\u00e7o p\u00farpura) em poucas horas andando desprevenido por Bel\u00e9m, um ar seco provocador incessante de tatu. Segundo o taxista que nos levou ao aeroporto ao final daquela semana, n\u00e3o chovia na cidade desde MAIO, o que considerei meio CASCA caso seja verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>airbnb: <\/strong>Ficava na Rua da Caridade, num bairro pacato aparentemente chamado S\u00e3o Jos\u00e9, n\u00e3o muito longe da esta\u00e7\u00e3o Avenida do metr\u00f4, coisa de uns 15 minutos a p\u00e9 da beira do Tejo ali na banda da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio. Vindo do n\u00edvel do mar tinha que subir uma lomba m\u00e9dia, uma escadaria de uns 50 degraus e mais outra lomba, maior e mais inclinada que a primeira, atingindo praticamente o cume do monte. A\u00ed tu chegava num pr\u00e9dio, com cheiro de esgoto no corredor e tr\u00eas lances de escada estreita pra subir. Quando tu abria a porta, todavia: outro mundo. Era um duplex bem baixado, com dois quartos bem decentes (um deles com um pitoresco lavabo com janela pra rua, do qual seria totalmente poss\u00edvel cagar observando os vizinhos caso se quisesse) no piso por onde se entrava. Subindo uma escada meio \u00edngreme chegava-se ao segundo andar, com uma enorme sala multifuncional, equipada com sof\u00e1s e poltronas ultra-confort\u00e1veis, uma boa televis\u00e3o repleta de canais (incluindo uma esp\u00e9cie de Globo do Passado, que reproduzia v\u00e1rios programas dos anos 80 e 90 misturados com a novela das oito atual com um delay de poucas semanas) e uma \u00f3tima mesa de jantar ladeada por cadeiras. Banheiro muito bom, com chuveiro quente fixo na parede e o tradicional secador de toalhas, que usamos, na verdade, para secar cuecas e calcinhas (al\u00e9m das toalhas). Cozinha funcional em excelente estado, m\u00e1quina de lavar roupa (bom item para viagens de m\u00e9dia e longa dura\u00e7\u00e3o). Fechavam o combo duas mini varandinhas no fim da sala com uma mesa e uma cadeira, totalmente apertadinhas naquele espa\u00e7o ex\u00edguo &#8211;\u00a0 todavia muito afud\u00ea curtir sentadinho ali o dia indo embora, nuvem laranja, luz cor de rosa, c\u00e9u azul cada vez mais escuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>anfitri\u00e3o:<\/strong> Era uma mina chamada Alexandra, mas como tinha sido meu irm\u00e3o o respons\u00e1vel pelas reservas, demos oi para a pessoa errada, eu e Sandrinha, ao chegar. Uma velhota parruda, abrutalhada, com express\u00e3o de poucos amigos, que estava l\u00e1 numa manh\u00e3 de s\u00e1bado pra fazer uma faxina pegada. Eu tamb\u00e9m estaria meio assim. Em seguida j\u00e1 pintou a verdadeira Alexandra, uma portuga que falava r\u00e1pido e muito e nos explicou muita coisa sobre a cidade em poucos minutos. Boa pessoa divertida, simp\u00e1tica e gente fina.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>internet:<\/strong> Quando chegamos, numa tarde de s\u00e1bado,\u00a0 sofremos o penal de estar sem TV ou internet. O motivo era uma obra que estava sendo feita para refor\u00e7ar um muro que basicamente segurava uma consider\u00e1vel quantidade de terra no topo do morro, poucos metros acima. Algu\u00e9m tinha rompido algum cabo, a operadora j\u00e1 estava trabalhando para resolver a situa\u00e7\u00e3o, mas tudo parecia meio imprevis\u00edvel \u00e0quela altura. No domingo, Alexandra deu um pulo l\u00e1 em casa e largou um modem 4G ou algo assim pra quebrar um galho. No dia seguinte o problema se resolveu e regressou tanto o sinal da TV quanto o (excelente) sinal da internet.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>obra do local:<\/strong> N\u00f3s ainda n\u00e3o sab\u00edamos naquela hora, mas o elemento que uniria todos os airbnbs em que ficar\u00edamos ao longo dessa viagem seria o fato de sempre haver uma obra a um alcance menos de 20 metros dos nossos ouvidos. Em Lisboa era essa obra nesse muro que sustentava o topo do morro, onde havia umas betoneiras elaborando concreto e uns pedreiros portugueses gritando uns tro\u00e7os muito engra\u00e7ados em portugu\u00eas de Portugal. N\u00e3o chegou a incomodar. Na real incomodou t\u00e3o pouco que nem lembro se ficou rolando at\u00e9 o final da nossa estadia ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>vizinhos:<\/strong> Era uma galera discreta, em geral. A gente quase n\u00e3o via e mal ouvia. Um dia, dentro do nosso pr\u00e9dio, uma mulher brigou com a filha, amea\u00e7ando chamar a pol\u00edcia se ela n\u00e3o abrisse a porta. Todavia o conflito se desenvolveu de forma muito serena e tristonha, sobretudo para os padr\u00f5es latinos aos que um brasileiro est\u00e1 acostumado, e acabou murchando se resolvendo sozinho. Ao descer e subir a escadaria entre uma lomba e outra, avistamos diversas velhotas extremas. Chegamos a interagir com algumas. Invariavelmente tinham idade muito avan\u00e7ada (turminha dos 80) e pareciam ter uns 20 a menos. Boa parte da explica\u00e7\u00e3o talvez esteja no fato de que, aos 80 anos, ainda est\u00e3o subindo e descendo escadas todo santo dia. Ou talvez n\u00e3o. Nem sempre as coisas s\u00e3o o que parecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>ganja:<\/strong>\u00a0Nos ofereceram muito haxixe e maconha na chamada Baixa, o centr\u00e3o, supostamente o bairro mais tur\u00edstico da cidade, basicamente um enorme cal\u00e7ad\u00e3o de piso branco intercalando lojas e restaurantes que se estende at\u00e9 a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio. Literalmente a cada 10 segundos algu\u00e9m se aproximava do Dido e do Nes falando &#8220;hash&#8221; ou &#8220;marijuana&#8221;, certamente nos tirando pra gringo por conta da nossa latinha branca e style muito avan\u00e7ado. A maioria tinha pinta de indiano. Tu olhava pra m\u00e3o dos caras e tava sempre l\u00e1 a bolinha preta que obviamente n\u00e3o era haxixe. E mesmo que fosse: n\u00e3o faz muito a minha cabe\u00e7a. Eu gosto mesmo \u00e9 da planta. At\u00e9 teve uma noite que a gente passou por um maluco fumando um beck muito cheiroso, ele ofereceu pra gente, acho que at\u00e9 perigava ser quente, mas: ah. Pra qu\u00ea? Tinha Amsterdam logo ali adiante. Deixa quieto, my youth.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>m\u00fasica:<\/strong> Um tro\u00e7o que eu sempre curto fazer quando viajo pra gringa \u00e9 escutar os sons que eles est\u00e3o curtindo e assistir as coisas que eles est\u00e3o assistindo na TV. Nesse quesito Portugal trouxe uma grata surpresa, fundindo esses dois universos de uma maneira formid\u00e1vel no canal Trace Toca. Podemos resumi-lo como uma surra incessante de m\u00fasica afro-portuguesa, uma mistura louca de rap, trap e funk com kuduro e diversos outros beats e dialetos africanos muito brutais. Vinte e quatro horas ininterruptas dedicadas exclusivamente a videoclipes de artistas de Cabo Verde, Mo\u00e7ambique e Angola, al\u00e9m dos talentos oriundos de v\u00e1rias bocadas locais. Chegava l\u00e1 na baia era s\u00f3 Elji Beatzkilla (meio o MC Guim\u00ea deles), Piruka, Dillaz, Costuleta, Agir e o hitmaker absurdo Plut\u00f4nio, que contaminou minha mente por semanas com o r&#8217;n&#8217;b\u00a0<em>Tu n\u00e3o vales nada<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>supermercado:<\/strong> Se tenho um arrependimento na passagem por Portugal foi o subaproveitamento de suas redes de supermercado. Fomos poucas vezes, n\u00e3o fizemos nenhuma compra digna de nota &#8211; tanto que n\u00e3o consigo lembrar de nenhum p\u00e3o, nenhum queijo, nenhum frio especial que tenha comido para dar algum destaque. Acho que s\u00f3 compramos mesmo caf\u00e9, uns sucos, chocolate e uma bolacha meio ruim que at\u00e9 ficou de brinde pro pr\u00f3ximo h\u00f3spede. Em parte isso tamb\u00e9m aconteceu por conta do pre\u00e7o da comida em tascas, cervejarias (que \u00e9 como eles chamam os restaurantes), botecos e lanchonetes. Comer fora em Lisboa \u00e9 muito barato, em geral muito bom e, sabendo procurar, muito farto. A\u00ed o cara se anima.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>transporte p\u00fablico:<\/strong> Bem bom o esquema deles: tu compra uns cart\u00f5es de papel verde chamado VIVA VIAGEM, carrega eles com uma quantia em dinheiro e vai gastando conforme usa nas diversas linhas e meios de transporte. Usamos em metr\u00f4 e trem, mas acho que tamb\u00e9m vale pra bus e algumas balsas, se bobear. O metr\u00f4 \u00e9 simples, n\u00e3o vai muito longe, tem poucas linhas e n\u00e3o muitas esta\u00e7\u00f5es. Na hora do rush pode ficar meio cheio pra caralho e complicado (bem como o tr\u00e2nsito), mas na maior parte do tempo \u00e9 bem sweet. Pegamos trem duas vezes, uma para Bel\u00e9m (um bairro afastado do centro), outra para Sintra (uma cidade pr\u00f3xima de Lisboa). Em Sintra foi muito barbada, em Bel\u00e9m o cara fica um pouco mais longe das atra\u00e7\u00f5es e meio perdido numa primeira vez, mas tamb\u00e9m rola. Problema maior \u00e9 carregar o cart\u00e3o nas malditas m\u00e1quinas de auto-atendimento: se o maluco n\u00e3o tem dinheiro em moeda nem cart\u00e3o europeu, a\u00ed tem que encarar fila de guich\u00ea, o que nem sempre \u00e9 tranquilo. Eu mesmo morri nuns 40 minutos nessa brincadeira um dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>t\u00e1xi\/uber:<\/strong> N\u00e3o pegamos Uber em Lisboa. Os t\u00e1xis eram muito abundantes e baratos, e os motoras em geral eram gente fin\u00edssima. Dois deles vieram dando li\u00e7\u00f5es de hist\u00f3ria (falando sobre monumentos e personagens), outros dois deram reais sobre Lisboa e Portugal nos dias de hoje (\u00f3tima cidade segura e moderna, \u00f3timas perspectivas com o aumento do turismo, todavia gentrifica\u00e7\u00e3o de bairros tradicionais). S\u00f3 um dia a gente tava atrasada\u00e7o prum fado, tentado pegar t\u00e1xi h\u00e1 15 minutos sem sucesso, come\u00e7amos a caminhar meio no desespero na dire\u00e7\u00e3o do nosso destino e acabamos entrando no carro desse tioz\u00e3o totalmente fora de controle, que dirigiu a milh\u00e3o pelo meio daquelas vielas escorregadias, buzinando e xingando muito todo mundo pelo caminho porque queria se livrar logo pra assistir um jogo do Benfica na Champions. O bom foi que a gente chegou l\u00e1 uns 5 minutos antes do come\u00e7o do show (o que parecia totalmente imposs\u00edvel) e, na pressa, o maluc\u00e3o acabou nos cobrando s\u00f3 3 euros (a corrida tinha dado 4 no tax\u00edmetro).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>trago:<\/strong> Ceva n\u00e3o \u00e9 muito o forte dos tuga. O que o cara encontrava sempre l\u00e1 era a Sagres &#8211; a lager de briga deles &#8211; e a Super Bock &#8211; que al\u00e9m de n\u00e3o ser bock n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito diferente da Sagres. Garrafa ou chopp: n\u00e3o fazia muita diferen\u00e7a. Cevinha padr\u00e3o, amarelita, leve, meio docinha, gostosa de beber. Teve um dia num pico muito bom (chamado Taberna Anti-Dantas) que a gente tomou uma artesanal chamada Born in the IPA, produzida pela cervejaria local Musa. Essa sim: bem boa, dando chinelada na boca da cachorrada sem limites. Teve tamb\u00e9m uma escura (n\u00e3o lembro se Super Bock, Sagres ou at\u00e9 Estella Galicia &#8211; j\u00e1 que era bar de tapas espanhol) que a Sandrinha pediu um dia que era bem del\u00edcia. Na noite do fado mamamos um vinhozinho verde (chamava Alvarinho, da Deu la Deu), na Taberna Anti-Dantas foi um vinho do porto, no restaurante russo duas vodkas ucranianas (e uma ceva rusky chamada Baltika) e em \u00d3bidos metemo uma ginjinha no mel\u00e3o. E era isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>rangos:<\/strong> Portugal \u00e9 sacanagem. Os caras tem arroz de lampreia (que \u00e9 tipo um peixe-cobra com uma boca extremamente sinistra), percebes (um marisco) e toucinho do c\u00e9u (um doce de am\u00eandoa). N\u00e3o comi nenhum dos tr\u00eas. Mas comi coisa boa pra caralho em Portugal. A mais portuguesa de todas foi num restaurante pitorescamente batizado de Caseiro, em Bel\u00e9m: a\u00e7orda de camar\u00e3o. Pelo que li a receita (oriunda do Alentejo) varia muito, mas basicamente \u00e9 uma sopa que vai sendo engrossada com p\u00e3o e vira meio que um mingauz\u00e3o de sabores. No meu caso era apimentado e atolado de coentro, muito espetacular. Outro destaque foi o restaurante Incomum, em Sintra, onde comi o melhor e mais farto polvo da minha vida, com espinafre e uns nacos de ab\u00f3bora castigados na brasa fatais. A melhor tasca s\u00f3 abria \u00e0 noite e chamava-se Taberna Anti-Dantas. L\u00e1 comemos bolinhos de bacalhau fora de s\u00e9rie, uma salada de agri\u00e3o e figos estalando e um atum selado muito brutal. Tamb\u00e9m cantamos &#8220;New York, New York&#8221; e &#8220;Garota de Ipanema&#8221; com o restaurante inteiro (umas 4 mesas, no m\u00e1ximo 20 pessoas) por causa de um quarteto de irlandeses que chegou em chamas (e se recusou a acreditar que eu era brasileiro). Ainda no quesito frutos do mar &#8211; pelo qual a culin\u00e1ria do pa\u00eds \u00e9 famosa &#8211; comi um arroz de polvo, um bacalhau \u00e0s natas e outro com legumes e camar\u00f5es que estavam apenas ok; uma dourada muito saborosa num lugar chamado O Chiado e bolinhos de bacalhau (que eles chamam de past\u00e9is) bem gostosos em todos os lugares. Da culin\u00e1ria local que eu tive acesso, me arrependo um pouco de n\u00e3o ter provado um tal &#8220;bife de peru&#8221;, que parecia um <em>schnitzel<\/em>, um bife \u00e0 milanesa, e aparecia no menu e no balc\u00e3o de v\u00e1rias tascas pelas quais passamos. No mais, aproveitamos a gastronomia internacional de Lisboa comendo queijos e frios espanh\u00f3is num lugar de tapas muito bom (embora meio fancy e jovem) chamado Rubro, croquetes de queijo de cabra e chouri\u00e7o extremos num pub igualmente espanhol chamado Taberna Ib\u00e9rica, peito de pato ao molho de amora (<em>utka chekov<\/em>)\u00a0no russo Stanislav e um \u00f3timo <em>gua bao <\/em>(sanduichinho de p\u00e3o chicl\u00e9 chin\u00eas) de barriga de porco no asi\u00e1tico Boa Bao. Ainda deu tempo de meter dois burgers, um na chegada, outro na sa\u00edda. O da entrada chamava Gutsy, era um lugar todo modernoso e meio ass\u00e9ptico, mas barato e bem servido (embora n\u00e3o particularmente delicioso). O da sa\u00edda botava mais banca j\u00e1 no nome: Cultura do Hamb\u00farguer. De fato, superior ao Gutsy, embora o grande destaque tenha sido o PREGO (que \u00e9 como eles chamam um tipo de sandu\u00edche) da Sandrinha, e n\u00e3o os burgers que comemos (que estavam bons, mas nada de espetacular). Por fim, um destaque inusitado: a conserva de NABO que acompanhava o pote de azeitonas que nos serviram no Mascote da Atalaia, tasquinha escura onde assistimos um excelente show de fado. Das melhores coisas que j\u00e1 comi na vida. Voltaria l\u00e1 s\u00f3 para comer de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>doces: <\/strong>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, apesar da imensa variedade, fama e popularidade da do\u00e7aria portuguesa, comemos pouco doce em Portugal. Past\u00e9is de nata e de Bel\u00e9m, check. Os dois s\u00e3o rigorosamente o mesmo doce, mas Past\u00e9is de Bel\u00e9m, para os portugueses, s\u00f3 podem ser chamados dessa forma se forem comprados no bairro que leva o mesmo nome. Tanto estes quanto outros, comprados em v\u00e1rios outros bairros, possuem a seguinte caracter\u00edstica em comum: o mesmo sabor excelente. Fomos at\u00e9 Sintra e pedimos o doce local, chamado travesseiro, no famoso caf\u00e9 que os prepara e serve, mas: havia acabado de acabar. Sobremesa mesmo comemos s\u00f3 no Stanislav (um tro\u00e7o delicioso chamado\u00a0<em>shapka gugutse,\u00a0<\/em>panquecas de frutas vermelhas cobertas com chantili e temperadas com chocolate) e no Anti-Dantas (uns copinhos de chocolate cheios de vinho do porto &#8211; mais tarde descobrir\u00edamos que essa \u00e9 a maneira folcl\u00f3rica de consumir a not\u00f3ria ginjinha, mas enfim). Merece men\u00e7\u00e3o honrosa um tro\u00e7o chamado Rebu\u00e7ados Peitorais do Dr. Bayard, que s\u00e3o umas balinhas de mel contendo algum extrato vegetal, supostamente medicinais. Comemos como se fosse um Hall&#8217;s (embora n\u00e3o fosse refrescante como Hall&#8217;s e tivesse, na verdade, o sabor da bala de velho &#8211; bastante condizente com a propaganda e apresenta\u00e7\u00e3o visual, o que me deixou muito satisfeito).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>tourist trap:<\/strong> Uma noite j\u00e1 eram quase dez, tudo tava come\u00e7ando a fechar, n\u00f3s ficamos meio perdidos dando volta na Baixa depois de voltar de \u00d3bidos e acabamos sentando num restaurante totalmente cagado, com potencial tremendo de nos enfiar a faca na alma por dinheiro &#8211; que foi mais ou menos o que aconteceu. Card\u00e1pio plastificado com foto da comida \u00e9 sempre furada. Os caras eram uns indianos que n\u00e3o falavam nem portugu\u00eas nem ingl\u00eas direito. O chef\u00e3o ficava pressionando os gar\u00e7ons pra eles nos empurrarem mais coisas, mas a gente \u00e9 brasileiro e sabe dizer n\u00e3o pra gringo malandro, de modo que tomou apenas duas cevas (cada um dos Czarnobrothers), um suco (Sandrinha) e comeu tr\u00eas por\u00e7\u00f5es de bolinho de bacalhau (aka &#8216;pastel de bacalhau&#8217;). A conta foi uns 50 euros &#8211; cara pra caralho, mas a comida n\u00e3o chegou a ser horr\u00edvel. Fiquei com pena mesmo foi dos dois casais de gringos extremos english speakers que sentaram l\u00e1 (e pediram o prato m\u00e1ximo, com camar\u00e3o, peixe, costeleta de porco, batata frita, lingui\u00e7a, a porra toda) e principalmente do maluc\u00e3o que chegou com duas putas, baixou champanhe e u\u00edsque e uns SEIS pratos bombados. Esse deve ter chorado. V\u00e1 gostar de buceta assim l\u00e1 em Lisboa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>programas tur\u00edsticos:<\/strong> Ap\u00f3s enfrentar uma fila tremenda para recarregar nossos cart\u00f5es VIVA VIAGEM, fomos at\u00e9 <strong>Bel\u00e9m<\/strong> de trem sem maiores problemas, exceto pelo fato da esta\u00e7\u00e3o ficar meio distante de tudo que h\u00e1 de interessante no bairro (quase 2 km da torre, por exemplo). A primeira atra\u00e7\u00e3o \u00e9 o Mosteiro dos Jer\u00f4nimos que, todavia, sofria reforma, de modo que parte importante de sua bela fachada estava coberta por um tecid\u00e3o enorme com uma foto em tamanho real representando como o lugar ficaria debaixo daquele pano. H\u00e1 um jardim muito bonito logo \u00e0 frente, com fontes e est\u00e1tuas boas pra se tirar retratos com forte carga dram\u00e1tica. Atravessando a rua e dando uma pernada consider\u00e1vel vemos o gigantesco Padr\u00e3o dos Descobrimentos, um monumento realmente enorme e impressionante, retratando um monte de malandro barbudo tudo subido numa rampinha olhando prum peda\u00e7o do rio que desemboca no mar. \u00c9 bem bonito. Olhando pra esquerda tu ainda v\u00ea a tal Ponte 25 de Abril, que \u00e9 uma r\u00e9plica da Golden Gate Bridge, de San Francisco. Achei meio sem sentido, mas ok. Dali \u00e9 poss\u00edvel partir em caminhada semi heroica pela beira do rio at\u00e9 a ic\u00f4nica Torre de Bel\u00e9m &#8211; e uso aqui este predicado por haver percorrido os 900 e poucos metros debaixo de um sol retinto das tr\u00eas da tarde que me deixou com um senhor torr\u00e3o (por sorte n\u00e3o ardeu muito e nem produziu insola\u00e7\u00e3o, mas pelo resto da viagem exibi um pesco\u00e7o morena\u00e7o). N\u00e3o vi vantagem em ficar horas fritando no sol na fila para subir escada medieval dentro da torre, mas \u00e9 um bagulho bem bonito de ficar olhando. Sentamos num banco e fizemos exatamente isso. Depois chegamos mais perto, na beira do mar, aspirando aquele ar salgado, pra curtir a vista e tirar umas fotos. Na sombra tava at\u00e9 meio frio. Gostoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Um dia fomos ao <strong>Castelo de S\u00e3o Jorge<\/strong>. Sabiamente, pegamos um t\u00e1xi. Foi barato e conveniente: s\u00e3o lombas muito pegadas at\u00e9 l\u00e1 em cima, numa inclina\u00e7\u00e3o muito extrema, tudo feito daquela pedrinha sabonetosa e escorregadia. A p\u00e9 deve ser a morte. Tem umas partes que o carro embica tanto que parece que ele est\u00e1 escalando o morro. O castelo em si \u00e9 bem massa, em \u00f3timo estado de conserva\u00e7\u00e3o e com uma farta \u00e1rea de sombra produzida pelas \u00e1rvores para acalmar a pele do cidad\u00e3o. Logo que tu entra, debaixo desse toldinho de folha, j\u00e1 d\u00e1 de cara com um mirante fudido, com uma vista nada menos que espetacular da cidade. Tamb\u00e9m d\u00e1 pra subir umas escadas pra ter uma vis\u00e3o um pouco mais do alto e caminhar pelos muros originais do bicho, tudo muito insalubre, sem corrim\u00e3o nem qualquer outro tipo de prote\u00e7\u00e3o. Imagino que seja raro que aconte\u00e7a, mas se o cara escorrega pro lado errado ali em cima certamente d\u00e1 merda. Mas esse dia ningu\u00e9m escorregou. Tem restaurante, lanchonete e uns quiosques vendendo \u00e1gua, vinho e sorvete, e tem uns pav\u00e3o meio solto no meio dos pombos disputando farelo de Cheetos e naco de p\u00e3o (o que achei meio depr\u00ea). Mas s\u00f3 pela vista j\u00e1 vale a visita. Sair do Castelo e descer se perdendo pelas ruazinhas do bairro tamb\u00e9m \u00e9 massa. Os restaurantes da regi\u00e3o, na m\u00e9dia, s\u00e3o excessivamente tur\u00edsticos: caros e malandrinhos (cobrando dissimuladamente altos pre\u00e7os por itens como azeitonas ou queijo Serra da Estrela), mas nem por isso desprez\u00edveis (quer dizer, pelo menos tem queijo Serra da Estrela).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Outra coisa fortemente tur\u00edstica que fizemos foi: assistir a uma <strong>apresenta\u00e7\u00e3o de fado<\/strong>. Passamos uns dias pesquisando e descobrimos que existem duas op\u00e7\u00f5es poss\u00edveis: a) o fado tradicional, semi-caricato para ingl\u00eas ver; b) o fado vadio. O semi-caricato, com aquela figura inconfund\u00edvel da tiazona portuguesa de vestido escuro e um Nuno aleat\u00f3rio qualquer de terno, bigode e gel no cabelo moendo uma viola at\u00e9 n\u00e3o seria um grande problema n\u00e3o fosse o pre\u00e7o, na casa dos 30 euros por pessoa (com jantar e bebida inclusa). No vadio gastamos pouco mais que isso numa conta para tr\u00eas, comendo azeitonas, bolinhos de bacalhau e bebendo vinho. Fado vadio \u00e9 como eles chamam quando rola um microfone aberto no pico. Uma banda de m\u00fasicos profissionais toca 3 ou 4 m\u00fasicas e da\u00ed qualquer um da plateia pode se oferecer pra cantar ou tocar algumas tamb\u00e9m. \u00c9 mais aut\u00eantico, mais cru. Acabamos indo a esse lugar chamado Mascote da Atalaia, no Bairro Alto. Absolutamente pequeno. Algo como trinta pessoas sentadas &#8211; a maioria em mesas compartilhadas para seis pessoas. Como fomos os primeiros a chegar, ficamos na \u00fanica mesa para quatro, a mais pr\u00f3xima dos m\u00fasicos. Eu estava sentado exatamente ao lado da porta do banheiro. Quando o show come\u00e7ou, meteram uma cadeira ali interditando os esf\u00edncteres da rapaziada e botaram um magrinho de cabelo molinha pra tocar guitarra portuguesa (tem fortes vibes de ala\u00fade) bem do meu lado, cotovelo \u00e0s vezes futucando o meu. Foi experi\u00eancia bastante possante em termos est\u00e9ticos e emocionais. Os m\u00fasicos &#8211; al\u00e9m do magrinho molinha, uma mulher de cabelo preso e um tioz\u00e3o retaco de barba cerrada &#8211; eram bons pra caralho. Primeiro cantou uma mina baixotinha de uns vinte e poucos anos, de t\u00eanis, camiseta e rabo de cavalo, e essa nanica arrebentou tudo. Confesso que pensei que esse lance de show de fado seria uma presepada do caralho, mas acabou sendo muito, muito bonito. A voz dessa mina era um tro\u00e7o absurdo, e como ela cantou ali, no ch\u00e3o, a pouco mais de 1 metro de dist\u00e2ncia, ficando na ponta dos p\u00e9s e se apoiando na nossa mesa quando rolava uns \u00e1pices: deu pra sentir muito mais. Impactante mesmo. Emocionante pra caralho, o cara fica at\u00e9 com vontade de chorar de tanta tristeza que essa m\u00fasica cont\u00e9m. Que loucura. Depois dessa mina cantou um v\u00e9io meio magro, suad\u00e3o e bronzeado, com o cabelo encaracolado, compridinho e branco. Era bom esse v\u00e9io tamb\u00e9m, todavia achei mais engra\u00e7ado do que triste. De toda forma, compensou demais esse esquema. Recomendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Praticamos, ainda, a viagenzinha curta nesses dias em Lisboa. A primeira foi pra <strong>Sintra<\/strong>, pegando um trem que, em vinte minutos, te larga na boca da city. Uma vez l\u00e1 compramos passagens de 24h praquele \u00f4nibus tur\u00edstico vermelho que os gringos chamam de <em>hop on hop off<\/em>. Acabou sendo uma m\u00e3o na roda porque nos poupou muita subida extrema, nos desovando igualmente na boca do tal Pal\u00e1cio da Pena, um bagulho altamente surreal e inacredit\u00e1vel. \u00c9 uma porra dum castelo enorme com umas torres pintadas de azul, outras de vermelho, uns peda\u00e7os de amarelo, sentado no topo dum morr\u00e3o maravilhoso, cercado de um mato esperto \u00e0s suas voltas e dotado de uma vista nada menos que maravilhosa. Al\u00e9m de curtir o panorama humilhante do mundo que se tem l\u00e1 de cima, ainda d\u00e1 pra explorar os corredores e diversos aposentos ricamente mobiliados e decorados do lugar que, sabe-se l\u00e1 como, tinha at\u00e9 uma sala de telefone (pra quem esse pessoal ligava? quem ligava pra l\u00e1?). \u00c9 um neg\u00f3cio realmente fustigante. J\u00e1 que est\u00e1vamos por l\u00e1 mesmo, aproveitamos pra dar uma banda mais caprichada nesse mesmo <em>hop on hop off<\/em> que nos levou at\u00e9 o Cabo da Roca, um passeio que nos permitiu conhecer um pouco das cidades pequenas do interior do pa\u00eds e tamb\u00e9m algumas praias. Nunca vou me esquecer do dia acabando no ponto mais ocidental do continente: o vento frio, o cheiro do mar, as ondas metralhando as pedras l\u00e1 em baixo, a copa das \u00e1rvores balan\u00e7ando l\u00e1 em cima, o amarelo das folhas avermelhado por aquela \u00faltima luz do crep\u00fasculo. Parecia que tava tudo pegando fogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Andamos por <strong>\u00d3bidos<\/strong> uns dias depois. Dava pra chegar de trem, mas a esta\u00e7\u00e3o ficava supostamente longe da cidade. Ir de \u00f4nibus envolvia uma certa m\u00e3o em deslocamentos de metr\u00f4 por dentro Lisboa e algum labirintismo atr\u00e1s da parada correta na esta\u00e7\u00e3o Mato Grosso, mas o bus tinha a vantagem de nos largar na cara do gol. Se n\u00e3o me engano esse bus ia pra Caldas da Rainha e o cara tinha que descer no meio do caminho, mas era barbada fazer isso (na pior das hip\u00f3teses era s\u00f3 seguir os outros turistas, mas \u00e9 bem f\u00e1cil de perceber onde tu est\u00e1 chegando quando v\u00ea os muros de pedra medieval). A cidade em si \u00e9 meio igual a Paraty, no Rio de Janeiro, ent\u00e3o n\u00e3o me comoveu profundamente. Valeu mesmo pela ginjinha (o licor da ginja, fruta local similar \u00e0 cereja) e pelo vinho do porto branco Offley &#8211; cujas garrafas comprei nesta visita e transportei por mais de 20 dias, 5 aeroportos e pa\u00edses dentro de uma mala, tendo chegado ao seu destino: intactas. Um salve para todas as companhias a\u00e9reas e ferrovi\u00e1rias que tornaram isso poss\u00edvel. \u00d3bidos quase virou \u00f3bitos quando inventei de subir nos muros da cidade. \u00c0 primeira vista parece uma excelente ideia dar a volta na cidade a v\u00e1rios metros de altura, observando o casario e a paisagem l\u00e1 embaixo. Na pr\u00e1tica, todavia, o sonho foi brutalmente mastigado pelos dentes duros da realidade. O que acontece \u00e9 que, assim como no Castelo de S\u00e3o Jorge, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma prote\u00e7\u00e3o para quem se aventura nessa brincadeira. Num dos lados temos efetivamente o muro do castelo, que d\u00e1 para um precip\u00edcio de uns 100 metros de altura &#8211; mas pelo menos te oferece uma tremenda prote\u00e7\u00e3o contra este tombo. Do outro lado n\u00e3o tem nada. Claro que aqui o tombo \u00e9 bem menor, podendo ser de uns 5 metros se o cara der a sorte de cair no telhado de uma casa; mas tem uns trechos que \u00e9 uma queda livre de mais de 30 metros. At\u00e9 a\u00ed, ok, v\u00e1 l\u00e1: t\u00e1 na conta da habilidade do caminhante. O problema \u00e9 que tu tem um espa\u00e7o de um metro pra caminhar e na contram\u00e3o t\u00e1 sempre vindo um casal de velhos de bengala, uma fam\u00edlia de gord\u00e3o americano, todo mundo se jogando pros lados e precisando se apoiar em alguma coisa pra n\u00e3o cair. E a\u00ed tu, garot\u00e3o juvenil, saud\u00e1vel, brioso, pra fazer a parceria pros gordo e pros v\u00e9io o que que tu faz? Tu deixa eles se escorarem no muro e fica de costas pro vazio, torcendo pra que eles n\u00e3o se pendurem em ti caso alguma coisa d\u00ea errado. O pior \u00e9 que uns desses veios eram muito filha da puta e passavam dizendo coisas do tipo &#8220;voc\u00ea \u00e9 muito jovem, a vida vale a pena, n\u00e3o se atire da\u00ed&#8221; em tom de brincadeirinha desgra\u00e7ada quando a gente dava o lado pra eles. Aguentei uns 200 metros assim (o percurso completo tem, salvo engano, uns 2 km) e pedi arrego quando um v\u00e9io EFETIVAMENTE resvalou numa pedra l\u00e1 e eu meio que me grudei nele antes dele se grudar em mim. Naquela hora pensei que tava tudo errado, que se algu\u00e9m merecia ser poupado de morrer escorregando de forma est\u00fapida dos muros de \u00d3bidos era um alem\u00e3o de 80 anos, n\u00e3o um filho da Medianeira de 38, mas achei melhor simplesmente desistir e descer. Afinal de contas, pensei, aquela porra n\u00e3o foi projetada pra ter um fluxo constante de gente nas duas dire\u00e7\u00f5es. Certo que uma hora vai dar merda (se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o deu, acho imposs\u00edvel que n\u00e3o tenha dado). Pior de tudo foi que quando decidi voltar, eu mesmo sofri um breve escorreg\u00e3o, joguei o peso do corpo pro lado errado e tive que usar todo o conhecimento, flexibilidade e t\u00f4nus adquirido em anos de pilates s\u00e9rio e caprichado pra me puxar de volta, recobrar o equil\u00edbrio e evitar uma morte extremamente rid\u00edcula logo no come\u00e7o da viagem. Ou seja, legal \u00d3bidos e tudo, mas n\u00e3o recomendo subir no muro (e nem ir at\u00e9 l\u00e1 se tu j\u00e1 foi a Paraty).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>maloqueiragem:<\/strong>\u00a0And\u00e1vamos por uma ruelinha solit\u00e1ria depois do almo\u00e7o em \u00d3bidos quando reparei que as paredes obscenamente brancas das casas estavam repletas de nomes azulados escritos nelas. Comentei em tom de semi tro\u00e7a que &#8220;bah, se eu tivesse trazido uma caneta certamente ia meter uma tag a\u00ed&#8221;, e Sandrinha prontamente produziu uma sharpie preta, com a qual todos assinamos nossos nomes no patrim\u00f4nio hist\u00f3rico portugu\u00eas. S\u00f3 quando est\u00e1vamos indo embora vimos a placa que pedia aos turistas que n\u00e3o fizessem aquela chinelagem em sua cidade, mas a\u00ed j\u00e1 era tarde demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>dificuldades de l\u00edngua: <\/strong>Baix\u00edssima, afinal de contas, o pa\u00eds todo fala portugu\u00eas (e, cada vez mais, ingl\u00eas, a julgar pelo grande n\u00famero de vezes que fomos interpelados nesta l\u00edngua gra\u00e7as \u00e0 tonalidade de nossas faces, peles e cabelos).<strong>\u00a0<\/strong>Dito isto, todavia, apesar dos caras falarem e escreverem em portugu\u00eas por l\u00e1, o uso da l\u00edngua \u00e9 bastante diferente. H\u00e1 muitas palavras novas e constru\u00e7\u00f5es estranhas nas placas, avisos e card\u00e1pios e se algum maluco destrambelha a falar muito r\u00e1pido n\u00e3o d\u00e1 pra entender quase nada. Mas claro que rapidinho o cara aprende as novidades, se acostuma \u00e0s nuances e quando v\u00ea t\u00e1 achando suave e macio tomar um comboio pra comer uma sapateira numa tasca muito engra\u00e7ada perto do Rossio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>odores:<\/strong> Perfumes pouco pronunciados em Lisboa, mesmo com a cidade extremamente seca. Talvez o mais marcante seja mesmo o cheiro dos peixes, moluscos e mariscos cozinhando com cebola e azeite escapando pelas janelas e portas das cozinhas espalhadas pela cidade. Teve o olor salgado do mar trazido pelo vento no Cabo da Roca, evidente, mas fora isso aromas neutros, pouco memor\u00e1veis, por todas as cidades que passamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>seguran\u00e7a:<\/strong> V\u00e1rios nativos se orgulhavam em afirmar repetidas vezes que Portugal era o pa\u00eds mais seguro da Europa, o que pareceu ser, de fato, o caso. Andamos pra cima e pra baixo, dia e noite, e mal vimos pedintes e moradores de rua. Havia alguma presen\u00e7a policial e militar, mas era muito discreta em compara\u00e7\u00e3o aos demais destinos. N\u00e3o lembro de nenhum golpe que tenham tentado nos aplicar, exceto os tradicionais africanos que amarram uma fitinha colorida no teu pulso e depois exigem 10 ou 20 euros que, todavia, ao descobrir que \u00e9ramos brasileiros (e n\u00e3o deix\u00e1vamos que pegassem nossos pulsos) sempre riam, faziam elogios gen\u00e9ricos e logo nos abandonavam, concentrando seus esfor\u00e7os em algum outro turista mais endinheirado, mosc\u00e3o e inocente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>volume de turistas:<\/strong> Bastante modesto em Lisboa, chegando a moderado nos monumentos, cidades tur\u00edsticas e algumas esta\u00e7\u00f5es de transporte p\u00fablico. Os pr\u00f3prios portugueses reconhecem que seu pa\u00eds sempre foi destino pouco requisitado, mas que ganhou for\u00e7a nos \u00faltimos anos por conta do medo de atentados terroristas nos destinos mais populares (Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Inglaterra, Alemanha e Espanha). Mesmo assim, cidade tranquila, Lisboa. Muito frequent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>aeroporto:<\/strong> Confuso e lotado, sobretudo no setor de imigra\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o especialmente ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><strong>presen\u00e7a ilustre:<\/strong> Num dos primeiros dias da viagem, caminhando pelo cal\u00e7ad\u00e3o da Baixa, Sandrinha alegou ter avistado John Malkovich. Imediatamente duvidamos dela. Alguns dias depois, contudo, ficamos sabendo que o ator havia, de fato, comprado uma casa em Lisboa h\u00e1 pouco tempo, e que, aparentemente, estava na cidade naquele mesmo per\u00edodo, o que fez com que seu relato ganhasse for\u00e7a e verossimilhan\u00e7a. O que \u00e9 certo, todavia, \u00e9 que em nossa \u00faltima noite avistamos o ator Thiago Lacerda emergindo da esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 Restauradores, todo gord\u00e3o e empolgado, berrando para o amigo que o acompanhava &#8220;cara, eu vou te levar pra comer o melhor bife de Lisboa&#8221; e apontando, segundo meu irm\u00e3o, para a Cervejaria Pin\u00f3quio, que, saber\u00edamos mais tarde, trata-se do restaurante preferido do Zeca Pagodinho na cidade. Fui pesquisar e descobri que o lugar, apesar de ser especializado em frutos do mar, possui, realmente, um fil\u00e9 famoso em sua ementa (que \u00e9 como eles chamam o card\u00e1pio). Quem poderia imaginar? O gord\u00e3o do Thiago Lacerda, \u00e9 claro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ali pelo terceiro ou quarto dia em Portugal fiquei sabendo (e de uma maneira fortuita, lendo a minha timeline do Twitter) que naquelas terras a express\u00e3o &#8220;dar o peido mestre&#8221; significava &#8220;bater as botas&#8221;. A partir daquele instante me corroeu fundo a vontade de us\u00e1-la no mundo real. 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