{"id":546,"date":"2017-08-19T15:50:08","date_gmt":"2017-08-19T18:50:08","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=546"},"modified":"2017-08-19T15:50:08","modified_gmt":"2017-08-19T18:50:08","slug":"two-dreams","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/08\/19\/two-dreams\/","title":{"rendered":"two dreams"},"content":{"rendered":"<p>No primeiro eu chegava a p\u00e9 em casa, mas n\u00e3o era mais a minha casa &#8211; quer dizer, um dia foi. O apartamento em que eu morava em Porto Alegre, no Bom Fim, em cima do Mariu&#8217;s, na \u00faltima quadra da Osvaldo Aranha, depois da curva que leva pro t\u00fanel (o \u00fanico da cidade), uma das ruas mais perigosas e dif\u00edceis de atravessar em toda a cidade.<\/p>\n<p>Estava nublado, e era meio de noite. Eu chamava o elevador e, enquanto ele n\u00e3o chegava, dava uma espiada num v\u00e3o que desembocava na garagem, um espa\u00e7o que n\u00e3o existia no pr\u00e9dio real. N\u00e3o havia muitos carros estacionados, e meu amigo EGS promovia um churrasco dan\u00e7ante com uma galera da FABICO por ali.<\/p>\n<p>O elevador chegava. Tinha uma daquelas portas pantogr\u00e1ficas (outro detalhe incompat\u00edvel com o verdadeiro pr\u00e9dio). Por algum motivo absurdo, eu havia pedido um Uber que n\u00e3o era um Uber, e sim um Cabify ou 99pop (posto que n\u00e3o uso mais os servi\u00e7os do Uber h\u00e1 meses, embora siga chamando o ato de pedir um desses carros de aplicativo de &#8220;chamar um Uber&#8221;). O elevador ia at\u00e9 em cima e, quando ele chegava, eu apertava o bot\u00e3o para descer novamente.<\/p>\n<p>L\u00e1 embaixo, na rua, o carro que me esperava n\u00e3o era o que eu esperava, e sim um dos cl\u00e1ssicos t\u00e1xis laranja tijolo (alguns dizem vermelho) de Porto Alegre. No banco do carona, ao lado do motorista, ia um velho, calvo, de cabelo branco. De alguma forma eu sabia que ele carregava uma grande quantia de cigarros consigo. Acho que cheguei a v\u00ea-los dentro de um ma\u00e7o curiosamente cil\u00edndrico. O motorista alegou que o velho era seu pai, e disse que o deixaria em sua casa, que ficava pelo caminho, caso eu n\u00e3o me importasse. Eu n\u00e3o me importei.<\/p>\n<p>Todavia, obviamente, logo ficou claro que alguma coisa estava errada.<\/p>\n<p>O caminho n\u00e3o se parecia em nada com o que eu estava acostumado. Na verdade, eu nunca tinha visto nenhuma daquelas ruas, n\u00e3o conhecia aquelas casas, aquela paisagem. Experimentei um forte arrependimento por haver entrado naquele carro. Comecei a me perguntar\u00a0<em>por que fiz isso?<\/em>\u00a0Notei que o celular do motorista, vis\u00edvel, pendurado no painel, n\u00e3o estava com o GPS ativado, e pedi que ele inserisse o endere\u00e7o do meu destino ali. Ele desconversou. A paisagem n\u00e3o era particularmente assustadora. De certo modo era at\u00e9 bonita: uns bairros buc\u00f3licos, arborizados. Montanhas cobertas de grama e um imenso corpo d&#8217;\u00e1gua que n\u00e3o entendi se era um lago ou mesmo o mar. Mesmo assim, eu estava cada vez mais desconfort\u00e1vel com a situa\u00e7\u00e3o. Quando tentei abrir a porta do carro e a encontrei trancada, bateu o pavor.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed acordei.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>No segundo eu ia passar por uma cirurgia no cora\u00e7\u00e3o, aparentemente simples e r\u00e1pida, sem maiores cortes, que me permitiria voltar para casa no mesmo dia. Eu aceitava tudo com muita facilidade e at\u00e9 alguma alegria (que estranho), mas, alguns momentos antes de come\u00e7ar a anestesia me ocorreu uma pergunta deveras importante: por que estou fazendo isso? Quer dizer, que problema estou buscando tratar com este procedimento? Resolvi questionar os m\u00e9dicos que, a exemplo do motorista mental do outro sonho, mergulharam fundo nas evasivas. Quando comecei a me desesperar e tentei levantar da cama, fui impedido.<\/p>\n<p>E a\u00ed, novamente, acordei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro eu chegava a p\u00e9 em casa, mas n\u00e3o era mais a minha casa &#8211; quer dizer, um dia foi. 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