{"id":527,"date":"2017-07-24T12:36:08","date_gmt":"2017-07-24T15:36:08","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=527"},"modified":"2017-07-24T12:36:08","modified_gmt":"2017-07-24T15:36:08","slug":"chacrinha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/07\/24\/chacrinha\/","title":{"rendered":"chacrinha"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e1bado assisti pouco mais de uma hora de uma reprise de um programa do Cassino do Chacrinha. Foi uma experi\u00eancia muito interessante em v\u00e1rios n\u00edveis, e provocou uma epifania um tanto inc\u00f4moda em minha cuca, cuja trajet\u00f3ria se resume da seguinte forma: a) num primeiro impacto pensei &#8220;tu v\u00ea s\u00f3, um dia o Brasil j\u00e1 foi assim&#8221;; b) alguns minutos depois pensei &#8220;as pessoas pareciam mais felizes, ser\u00e1 que era mesmo melhor?&#8221; muito embora o programa fizesse propaganda do Governo Jos\u00e9 Sarney e eu me lembre muito bem desse governo, com racionamento de carne e infla\u00e7\u00e3o de mais de MIL por cento ao ano; c) por fim me dei conta de que &#8220;o Brasil ainda \u00e9 100% assim, a diferen\u00e7a \u00e9 que no final dos anos 80 a Globo ainda estava conectada ao povo brasileiro, e hoje em dia (e h\u00e1 anos) n\u00e3o est\u00e1 mais.&#8221;<\/p>\n<p>De repente fez sentido o IBOPE da Globo estar cada vez menor enquanto o de redes que ainda buscam um contato com a massa brasileira, como a Record e o SBT, estarem cada vez maiores.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Fora isso, fiquei bastante impactado com o programa de modo geral. A dan\u00e7a das Chacretes (todas batizadas com nomes de guerra intensos como &#8220;Sandrinha Toda Pura&#8221;, &#8220;Gracinha Copacabana&#8221; e &#8220;Gleice&#8221;), focadas de baixo pra cima, com closes escancarados em suas bundas e virilhas; o desfile intermin\u00e1vel de artistas de grande vulto como Biafra, Sylvinho, Benito di Paula, Sandra S\u00e1, Almir Guineto, Sarah Jane e Lu\u00eds Caldas, todo mundo mandando ver num playback extremo; as mensagens de apoio ao governo Jos\u00e9 Sarney na voz do Chacrinha, no texto de algumas placas levantadas pela produ\u00e7\u00e3o e na fala de alguns de seus jurados (que inclu\u00edam Elke Maravilha, Jo\u00e3o Kl\u00e9ber e S\u00f4nia Abra\u00e3o); as roupas, cortes de cabelo e formato do corpo das pessoas, entre artistas e populacho, equilibrando-se num espa\u00e7o esquisito entre o final dos anos 70 (costeletas, camisa aberta, cal\u00e7a boca de sino) e o auge dos 80 (ombreira, mullet, cal\u00e7a de jeans nevada); o arremesso de jacas, ab\u00f3boras, melancias, quilos de arroz, feij\u00e3o e farinha \u00e0 plateia, geralmente acompanhados de an\u00fancios pr\u00f3-governo federal (cujo slogan na \u00e9poca era &#8220;Tudo pelo social&#8221;).<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que esta aura segue intacta em qualquer boteco com mesa de sinuca que vende pinga, qualquer puteiro de beira de estrada frequentado por caminhoneiros, qualquer munic\u00edpio com menos de 50 mil habitantes que ainda conserva o mais puro suco do brasileiro &#8211; e ainda n\u00e3o sei muito bem o que fazer com essa constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos deixar assentar mais uns dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e1bado assisti pouco mais de uma hora de uma reprise de um programa do Cassino do Chacrinha. 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