{"id":509,"date":"2017-07-02T21:17:38","date_gmt":"2017-07-03T00:17:38","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=509"},"modified":"2017-07-09T04:21:18","modified_gmt":"2017-07-09T07:21:18","slug":"discografia-afetiva-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/07\/02\/discografia-afetiva-ii\/","title":{"rendered":"discografia afetiva II"},"content":{"rendered":"<p>Disclaimer\u00a0<a href=\"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/05\/05\/a-discoteca-do-flavito\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Amandla &#8211; Miles Davis (1989).\u00a0<\/strong>Estranho como o Flavito tinha esse gosto amplo no tocante ao jazz: na discoteca dele tinha dixieland, tinha standard, mas, principalmente, tinha essas loucuradas fusion dos anos 80 que eram, em grande parte, vamos admitir, meio chatonas. \u00c9 tudo uns stabs, uns cowbell, aquele baixo do Seinfeld (nesse caso \u00e9 do Marcus Miller, but still) e umas corneta meio desconcertante por cima de uns efeitos de rob\u00f4 passando mal. N\u00e3o conversa muito comigo. Apesar disso tudo, sempre gostei muito de uma faixa grandona chamada <em>Big Time,<\/em>\u00a0e foi bem bom ouvi-la de novo.<\/p>\n<p><strong>Airport Love Theme &#8211; Vincent Bell (1970).<\/strong> Um dos cl\u00e1ssicos absolutos da minha inf\u00e2ncia. Eu tinha um pouco de medo, um pouco de fascina\u00e7\u00e3o por ele &#8211; e o Flavito escutava bastante. Aquela guitarrinha psicod\u00e9lica que parece l\u00edquida \u00e9 uma das lembran\u00e7as sensoriais mais fortes que tenho. Lembrava com mais for\u00e7a da faixa-tema, mas o disco inteiro \u00e9 muito bom e, aparentemente, bastante raro tamb\u00e9m. Ouvi-lo \u00e9 uma boa forma de evocar a imagem da masculinidade adulta idealizada que eu tinha quando crian\u00e7a: cigarros finos tirados de um ma\u00e7o dourado, um apartamento esfuma\u00e7ado com sof\u00e1 de couro liso, quadrado, caramelo, janelas noturnas bem servidas, u\u00edsque com gelo num copo baixinho, uma mulher enfiada num <em>penhoir<\/em> mastigando uma piteira. Que crian\u00e7a eu era!<\/p>\n<p><strong>Luz &#8211; Djavan (1982).<\/strong> Neste ponto sou obrigado a fazer um <em>mea culpa<\/em>. Quando algu\u00e9m taxa Djavan de chato na minha frente, tendo a defend\u00ea-lo com forte convic\u00e7\u00e3o. Pois essa convic\u00e7\u00e3o foi severamente abalada ap\u00f3s ouvir este \u00e1lbum que, de bom mesmo, s\u00f3 tem a espetacular <em>Sina<\/em> e a maravilhosa <em>Samurai<\/em> &#8211; ambas t\u00e3o extremas que quase compensam o fato de todas as demais m\u00fasicas serem absolutamente tenebrosas. Nem consigo lembrar direito das letras ou das melodias. Quase n\u00e3o deu pra escutar at\u00e9 o fim. Eu tinha uma mem\u00f3ria afetiva muito mais favor\u00e1vel ao bardo das Alagoas. Veja s\u00f3 como s\u00e3o as coisas.<\/p>\n<p><strong>Sgt. Pepper&#8217;s Lonely Hearts Club Band &#8211; Beatles (1967).<\/strong> Outro dia o disco fez 50 anos, lembrei que tinha trazido um exemplar surrad\u00e3o nessa leva de vinis da casa dos meus pais e fui sacar da embalagem pra botar na vitrola quando tive duas surpresas. A primeira: aquela p\u00e1gina com uns desenhos para recortar &#8211; incluindo um bigode pra pendurar debaixo do nariz &#8211; que n\u00e3o lembro de ter visto quando era crian\u00e7a. A segunda: no selo do disco, uma assinatura do Henrique Schucman, o famoso tapeceiro do Pouso do Tapeceiro, da praia da Gamboa\/SC. Enquanto ouvia o vinilz\u00e3o pesado e grosso de 1967 (edi\u00e7\u00e3o nacional) ficava me perguntando: &#8220;ser\u00e1 que Flavito pegou emprestado o disco do Henrique e nunca mais devolveu?&#8221; Gosto muito do disco e acho todo ele bom, mas o ponto alto foi ouvir a &#8220;reprise&#8221; da faixa t\u00edtulo e perceber que foi justamente ali que desenvolvi meu gosto pela m\u00fasica eletr\u00f4nica (por conta do beat absolutamente fatal). Thanks, Ringo.<\/p>\n<p><strong>Portrait in Music &#8211; Burt Bacharach (1971).<\/strong> Sempre curti demais o <em>easy listening<\/em> do Burt, que \u00e9, disparado, o cara que fez as m\u00fasicas mais f\u00e1ceis de ouvir que eu conhe\u00e7o. N\u00e3o lembro de uma que eu n\u00e3o goste. Esse disco em particular, todavia, n\u00e3o havia me tocado muito, posto que esperava que fosse todo instrumental, e estava repleto de uma cantoria sem muita gra\u00e7a. Todavia, escondido no finzinho do lado B havia um grande presente para o Dido: a faixa <em>Any day now<\/em>. Alguns anos atr\u00e1s, acordei com a melodia do saxofone (ou clarinete) que sola no comecinho dessa m\u00fasica, sem saber que era dela. Procurei alguns dias na internet, assobiei pro SoundHound, tudo sem sucesso. Ent\u00e3o liguei pro Flavito e cantarolei a melodia pra ele. Ele n\u00e3o reconheceu de imediato, mas achou familiar e foi procurar. Durante semanas, toda vez que eu ia almo\u00e7ar na casa dos meus pais, ele me mostrava algum disco do Fausto Papetti, do Stanley Jordan, ou do Santana, crente que tinha encontrado aqueles acordes. Nunca era ela. Depois de algum tempo, paramos de procurar. Hoje, quando finalmente a encontrei, deu uma vontade enorme de ligar pro Flavito (que n\u00e3o usava Facebook e nem WhatsApp por princ\u00edpio e teimosia) e, deixando a m\u00fasica rolar de fundo, declarar: &#8220;encontrei.&#8221; Mas isso n\u00e3o d\u00e1 mais pra fazer.<\/p>\n<p><strong>South of the Border &#8211;\u00a0Herb Alpert&#8217;s Tijuana Brass (1964).<\/strong> N\u00e3o lembro do Flavito ouvindo esse disco sequer uma vez &#8211; bem como n\u00e3o lembro dele ter jamais posto pra tocar os compactos do TRINY LOPEZ, que ele tamb\u00e9m tinha. Mas lembro bem da capa, do impacto que me causou a logotipia e a ess\u00eancia latina que parecia estar ali contida. Mais velho, ouvi muito remix do Tijuana Brass, de modo que quando vi esse disco na discoteca do Flavito resolvi trazer, mesmo sem jamais ter ouvido. Foi uma escolha meio ruim. \u00c9 um disco xarope, com vers\u00f5es meio pau mole de grandes sucessos, como <em>Garota de Ipanema<\/em> e <em>Hello Dolly<\/em>. Faltou uma pimenta, uma p\u00f3lvora, um sangue correndo forte ali naquelas veias. Que pena.<\/p>\n<p><strong>Mais &#8211; Marisa Monte (1991).<\/strong> Sempre gostei muito de Marisa Monte, e esse disco \u00e9 quase perfeito. A voz dela est\u00e1 muito bonita, as letras s\u00e3o \u00f3timas (que grande can\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>Diariamente<\/em>). Tenho a vaga impress\u00e3o de que o Flavito j\u00e1 tinha esse \u00e1lbum em CD quando algu\u00e9m lhe deu o vinil de presente. Faria sentido: foi por volta de 91 que ele deu pra mim e pro meu irm\u00e3o nossos primeiros CDs (<em>Ten<\/em>, do Pearl Jam e <em>Nevermind<\/em>, do Nirvana). Acho que ouvimos muito poucas vezes esse disco, portanto &#8211; sobretudo ele.<\/p>\n<p><strong>Meus Caros Amigos &#8211; Chico Buarque (1976).<\/strong> N\u00e3o transo um Chico Buarque, como \u00e9 do conhecimento de muitos. Todavia hoje j\u00e1 aprendi a respeitar como o enorme compositor que \u00e9. De qualquer modo, esse era um disco dele que o Flavito ouvia muito. Lembro particularmente de <em>Mulheres de Atenas<\/em>, m\u00fasica que me enchia de pavor (junto com a m\u00fasica do <em>C\u00e1lice<\/em> e uma que n\u00e3o sei se era o Chico que cantava com a Mercedes Sosa). Por algum motivo associo essa m\u00fasica a um blus\u00e3o de l\u00e3 branco que o Flavito teve em algum momento. N\u00e3o sei explicar o porqu\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Tim Maia &#8211; Tim Maia (1970).<\/strong> Mais um disco com hist\u00f3ria oculta, uma vez que: a) n\u00e3o lembro de ouvir o Flavito tocando jamais em toda sua vida; b) no selo est\u00e1 escrito o nome Ana Maria Czarobai, minha tia, irm\u00e3 dele. Independentemente disso, trata-se de disco muito formid\u00e1vel, o primeiro do Tim. Tem alguns momentos meio dispens\u00e1veis, mas na m\u00e9dia \u00e9 uma sonzeira de alt\u00edssima qualidade, sobretudo <em>Eu amo voc\u00ea<\/em>. Que bom que est\u00e1 em estado perfeito de conserva\u00e7\u00e3o, sem um m\u00edsero arranh\u00e3o, com os graves totalmente preservados. Que joia extrema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disclaimer\u00a0aqui. 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