{"id":503,"date":"2017-06-28T21:49:05","date_gmt":"2017-06-29T00:49:05","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=503"},"modified":"2017-06-27T22:05:58","modified_gmt":"2017-06-28T01:05:58","slug":"tres-do-flavito","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/06\/28\/tres-do-flavito\/","title":{"rendered":"tr\u00eas do flavito"},"content":{"rendered":"<p>Lembrei de tr\u00eas hist\u00f3rias m\u00e1gicas e emblem\u00e1ticas do Flavito, que ajudam a resumir bem quem ele foi pra quem n\u00e3o teve a sorte imensa de o conhecer:<\/p>\n<p>a) Quando \u00e9ramos crian\u00e7as, sempre que tinha festa de anivers\u00e1rio l\u00e1 em casa, quando a festa acabava, o Flavito pegava eu e meu irm\u00e3o, a comida que tinha sobrado e, junto com a gente, sa\u00eda pela cidade num Fusca at\u00e9 encontrar um mendigo, um morador de rua, uma fam\u00edlia embaixo de uma ponte e, juntos, do\u00e1vamos a comida. N\u00e3o lembro de ter nenhuma li\u00e7\u00e3o de moral a\u00ed, nenhum discurso. N\u00e3o tinha um &#8220;\u00f3, \u00e9 isso que voc\u00eas tem que fazer.&#8221; A gente fazia e s\u00f3. Passei anos sem lembrar disso. D\u00e9cadas. Veio uns dois dias depois da morte dele, do nada, enquanto eu tomava um banho. Lembrando disso, eu chorei &#8211; mas n\u00e3o de tristeza, e sim de algum tipo de gratid\u00e3o profunda que n\u00e3o sei nem explicar.<\/p>\n<p>b) J\u00e1 doente, no hospital, Flavito um dia esperou um enfermeiro muito gente fina que tinha l\u00e1 sair do quarto, chamou a Sandrinha de canto e disse: &#8220;O fulano t\u00e1 com dificuldades pra pagar a faculdade de medicina, que ele quer terminar pra mudar de vida. Quando eu sair daqui, quero ajudar ele a pagar a faculdade.&#8221; N\u00e3o chegamos a fazer isso e \u00e9 uma coisa que \u00e0s vezes me incomoda. Me pergunto se n\u00e3o dever\u00edamos ir atr\u00e1s desse cara e fazer mesmo isso por ele.<\/p>\n<p>c) Quando o quadro j\u00e1 era irrevers\u00edvel, mas Flavito ainda conseguia falar, beber e comer, ele insistia em fazer a festa de 40 anos de casado no Chez Phillipe, um restaurante franc\u00eas que ele s\u00f3 foi descobrir mais velho, quando finalmente teve condi\u00e7\u00f5es financeiras de frequent\u00e1-lo. Todos sab\u00edamos que aquilo n\u00e3o aconteceria, mas, para que ele tivesse direito a uma \u00faltima refei\u00e7\u00e3o, inventamos uma pantomima que dizia que o chef enviaria um dos pratos do card\u00e1pio para sua aprova\u00e7\u00e3o. Acontece que demos o imenso azar do Chez Phillipe estar fechando as portas definitivamente naquela semana. A fam\u00edlia retornaria para a Fran\u00e7a, estava vendendo os m\u00f3veis e equipamentos, provavelmente imersa em burocracia e dor de cabe\u00e7a (sem contar a frustra\u00e7\u00e3o). Mesmo assim, quando Petite ligou para l\u00e1 e explicou a situa\u00e7\u00e3o, o chef &#8211; que n\u00e3o nos conhecia, n\u00e3o tinha a menor intimidade com nenhum de n\u00f3s &#8211; parou tudo que estava fazendo para cozinhar um fil\u00e9 espetacular com pur\u00ea e legumes e um creme brul\u00e9e para o Flavito. Nunca pude agradec\u00ea-lo por isso, mas que ser humano mai\u00fasculo foi Phillipe Remondeau. Fiquei com ainda mais pena da cidade perder algu\u00e9m como ele. Quando chegou o prato e o levamos at\u00e9 Flavito, a primeira coisa que ele fez foi: cortar um peda\u00e7o da carne e oferecer a TODOS que estavam ali antes de dar ele a primeira garfada.<\/p>\n<p>Acho que isso resume bem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembrei de tr\u00eas hist\u00f3rias m\u00e1gicas e emblem\u00e1ticas do Flavito, que ajudam a resumir bem quem ele foi pra quem n\u00e3o teve a sorte imensa de o conhecer: a) Quando \u00e9ramos crian\u00e7as, sempre que tinha festa de anivers\u00e1rio l\u00e1 em casa, quando a festa acabava, o Flavito pegava eu e meu irm\u00e3o, a comida que tinha &hellip; <a href=\"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/06\/28\/tres-do-flavito\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;tr\u00eas do flavito&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-503","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dia-a-dia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=503"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":507,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions\/507"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}