{"id":501,"date":"2017-06-27T21:46:40","date_gmt":"2017-06-28T00:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=501"},"modified":"2017-06-27T21:46:40","modified_gmt":"2017-06-28T00:46:40","slug":"morte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/06\/27\/morte\/","title":{"rendered":"morte"},"content":{"rendered":"<p>Hoje eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o bastante tranquila com a morte.<\/p>\n<p>Nem sempre foi assim.<\/p>\n<p>Durante a inf\u00e2ncia e, pelo menos, os primeiros vinte anos de nossas vidas (isso numa exist\u00eancia livre de trag\u00e9dias e mis\u00e9ria, naturalmente), estamos imersos numa ilus\u00e3o estranha que nos sugere que tudo \u00e9 eterno, e que somos imortais. A partir da\u00ed, por uma s\u00e9rie de fatores &#8211; acidentes de carro, overdoses, viol\u00eancia urbana, reta final da vida para os nossos av\u00f3s e parentes mais velhos e uma maior consci\u00eancia do mundo e da realidade &#8211; o assunto come\u00e7a a entrar em pauta.<\/p>\n<p>A minha teoria, bastante simples, \u00e9 a seguinte: mesmo a partir desse choque de realidade, a esmagadora maioria das pessoas prefere continuar vivendo essa ilus\u00e3o em vez de se preparar, lenta e gradualmente, para o fim inevit\u00e1vel &#8211; e \u00e9 justamente por isso que a morte choca tanto quando se apresenta.<\/p>\n<p>Eu procuro fazer diferente.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Tive a sorte imensa de ter conhecido os meus quatro av\u00f3s. Convivi intensamente com os maternos (mor\u00e1vamos juntos), e de forma um pouco mais distante com os paternos (visit\u00e1vamos minha av\u00f3 aos fins-de-semana; meu av\u00f4 s\u00f3 fui conhecer j\u00e1 adulto). Assisti todos morrendo.\u00a0Os pais do meu pai, mais de longe. Os pais da minha m\u00e3e, muito de perto.<\/p>\n<p>Minha v\u00f3 paterna, Rosa de Toni, desenvolveu uma leucemia, mas, como ela morava em outro bairro e, que eu me lembre, jamais a visitei no hospital, apenas experimentei a sua morte como uma not\u00edcia amarga e esquisita dada pelo meu pai numa manh\u00e3 de fim-de-semana. A minha rea\u00e7\u00e3o, inesperada principalmente pra mim, foi um ataque de riso, algo que foi prontamente reprovado pelo meu irm\u00e3o, mais novo, e mais sens\u00edvel, mas, curiosa e maravilhosamente, compreendido e elaborado da seguinte maneira pelo meu pai, uma pessoa claramente de outro mundo: &#8220;Isso \u00e9 normal. Cada um reage de um jeito.&#8221;<\/p>\n<p>Fiquei com aquilo na cabe\u00e7a. Aprendi (ou acreditei) que em situa\u00e7\u00f5es extremas, tendo mais a rir que a chorar. Ou, talvez, em situa\u00e7\u00f5es de morte, apenas. Tanto \u00e9 que n\u00e3o consegui ir ao enterro da minha v\u00f3 Elfrida Rosumek, ou do meu v\u00f4 Pedro Pontes.<\/p>\n<p>Se com a doen\u00e7a da v\u00f3 Rosa eu tinha aprendido que alguns tipos de c\u00e2ncer tem uma melhora s\u00fabita e ilus\u00f3ria perto do fim s\u00f3 para depois despencar a toda velocidade no abismo, com a da v\u00f3 Frida eu conheci o sofrimento que \u00e9 manter uma pessoa entrevada numa cama por meses (talvez anos). N\u00e3o lembro bem como tudo come\u00e7ou. Sei que ela teve um derrame e quando voltou para casa ficou acamada, sem falar ou se mover, dependendo de todos para tudo. Na verdade tamb\u00e9m n\u00e3o lembro muito bem desse per\u00edodo, ou quanto tempo durou. Eu ainda era uma crian\u00e7a. Lembro de v\u00ea-la algumas vezes no seu quarto, os olhos vazios, o corpo ainda muito presente, forte, quente. Com medo de ter ataques de riso no cemit\u00e9rio, n\u00e3o fui ao seu enterro.<\/p>\n<p>O v\u00f4 Claudio Czarnobai, marido da v\u00f3 Rosa, a abandonou com quatro filhos para criar e foi embora de casa muito antes de eu nascer, de modo que eu s\u00f3 fui conhec\u00ea-lo efetivamente quando estava morrendo de um c\u00e2ncer no f\u00edgado e foi acolhido pelo meu pai, num epis\u00f3dio extremamente doloroso de sua vida, que tamb\u00e9m me deu as maiores li\u00e7\u00f5es sobre amor, compaix\u00e3o e perd\u00e3o que j\u00e1 tive. Nunca vou me esquecer da visita que fiz a ele no hospital. Parecia comigo. Parecia demais comigo. Comigo velho, grisalho, abatido, mas, ainda assim, eu me vi ali. Era um cara muito interessante, cativante, carism\u00e1tico. Falava gesticulando, era um homem bonito. Vi ali um vislumbre do meu futuro e senti, pela primeira vez, o grande vazio que ele deixou por n\u00e3o ter me encantado a vida inteira como fez naqueles cinco ou dez minutos. Lembro do meu pai encostado na porta do quarto, fascinado, com um sorriso largo no rosto e um brilho inconfund\u00edvel no olhar. Na volta para casa, no carro, a conversa descontra\u00edda e leve de repente teve uma virada brusca: Flavito parou o carro, come\u00e7ou a chorar e disse &#8220;Eu j\u00e1 tinha matado o teu av\u00f4. Na minha cabe\u00e7a, ele estava morto.&#8221; N\u00e3o lembro de ter visto meu pai chorar outra vez. Uns dois dias depois, o v\u00f4 Cl\u00e1udio, de fato, morreu. Tamb\u00e9m n\u00e3o fui ao seu enterro, ou n\u00e3o lembro de nada. Eu j\u00e1 era mais velho, aqui, at\u00e9 na faculdade j\u00e1 andava. Mas ainda tinha mais coisas a aprender.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Meu v\u00f4 Pedro, pai da minha m\u00e3e, foi quem definhou mais tempo, v\u00edtima do terr\u00edvel Mal de Alzheimer. A doen\u00e7a foi ainda mais filha da puta por consumir sua mente enquanto o corpo seguia funcionando de forma perfeita. O v\u00f4 Pedro era do ex\u00e9rcito. Membro da cavalaria, era tamb\u00e9m atleta, com recordes no atletismo que perigam ainda n\u00e3o terem sido batidos. Um negr\u00e3o forte pra caralho. Aos sessenta e v\u00e1rios, certa feita, segurou com os bra\u00e7os um OPALA sem freio descendo desgarrado uma lomba para evitar que colidisse com o port\u00e3o de nossa casa. Atravessou a maior parte da doen\u00e7a &#8211; que levou, na sua fase mais aguda, uns bons cinco anos &#8211; com o f\u00edsico em dia, todos os par\u00e2metros excelentes. S\u00f3 derretia, mesmo, a sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Com a doen\u00e7a do v\u00f4 Pedro, em dado momento, adoeceu a fam\u00edlia inteira. Era muito, muito pesado. Meus pais tentaram poupar a mim e ao meu irm\u00e3o o m\u00e1ximo que deu, mas j\u00e1 \u00e9ramos adultos ali, ambos com mais de vinte anos, isso nem era t\u00e3o necess\u00e1rio. Acabamos pegando junto na reta final, o que basicamente significava passar longas horas ouvindo as mesmas hist\u00f3rias enquanto faz\u00edamos companhia (algo que se aproxima muito de uma tortura psicol\u00f3gica, sob certos aspectos). Mas tamb\u00e9m significava dar banho, ajud\u00e1-lo a comer e fazer suas necessidades fisiol\u00f3gicas. Pode at\u00e9 soar c\u00f4mico, mas depois que tu limpa a bunda ou balan\u00e7a o pinto de um homem de 70 anos que tu sempre teve como refer\u00eancia de fortaleza e simbolo m\u00e1ximo de masculinidade, acontece alguma coisa na tua cabe\u00e7a que muda pra sempre a forma como tu encara a exist\u00eancia e, sobretudo, o tempo que tu passa nesse planeta.<\/p>\n<p>No enterro do v\u00f4 Pedro eu fui, e n\u00e3o tive acessos de riso.<\/p>\n<p>Bem como n\u00e3o ri nada no enterro do meu pai.<\/p>\n<p>Algumas pessoas me questionaram por n\u00e3o ter chorado em nenhum desses dois. Imagino que podem ter me visto como frio, ou insens\u00edvel, ou ainda terem suposto que eu estava sufocando sentimentos. Mas, como anteviu Flavito, de forma muito certeira, como sempre: &#8220;Cada um reage de um jeito.&#8221;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Quando Flavito morreu, ap\u00f3s uma breve, por\u00e9m intensa agonia de quinze dias no hospital (e cerca de quatro meses em casa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo e tratando um monte de coisa paralela at\u00e9 finalmente descobrirem o que estava causando todos aqueles sintomas), o primeiro impulso da minha m\u00e3e foi o de n\u00e3o fazer vel\u00f3rio. Talvez tivesse sido o meu primeiro impulso tamb\u00e9m, se n\u00e3o fosse por um fator: Flavito era um cara muito amado. Mas muito. E muita gente nem sonhava que ele estava doente. Achei que uma coisa que a gente devia ao Flavito era justamente essa despedida. Achei que talvez fosse positivo pra minha m\u00e3e ver que, naquele momento de tristeza imensa, havia muita coisa bonita pra acontecer: e, de fato, aconteceu.<\/p>\n<p>Se tem algo que meu pai soube fazer foi deixar uma marca em todos que o conheceram. Isso se viu claramente no seu vel\u00f3rio. Quase duzentas pessoas apareceram pra lhe dar adeus. Pessoas que n\u00e3o o viam h\u00e1 mais de dez anos. Pessoas que eu n\u00e3o via h\u00e1 mais de dez anos. Pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Em comum, todas trouxeram o seguinte: uma hist\u00f3ria maravilhosa vivida com meu pai, rica, viva, positiva. Houve choro? Claro. Tristeza tamb\u00e9m. Mas ouve risos, alegria, alto astral. Conhecendo meu pai como conhecia, tenho certeza de que era assim que ele gostaria de ter posto esse ponto final na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez eu tenha lidado t\u00e3o bem com a morte dele por ter tido, mais uma vez, a sorte de ter falado muito sobre o assunto com ele, especialmente depois do primeiro susto que ele nos deu, em 2009, quando sofreu um ataque card\u00edaco. As conversas enormes e profundas que tivemos nos meses subsequentes me forneceram uma esp\u00e9cie de conclus\u00e3o m\u00e1gica a todas as experi\u00eancias de morte que tinha vivido com todos os meus av\u00f3s, e desencadearam uma esp\u00e9cie de ru\u00eddo de fundo cont\u00ednuo, que fica me lembrando sempre que a gente tem que estar sempre preparado pra morte se quer viver a nossa vida ao m\u00e1ximo e da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Tenho pensado muito no meu pai ultimamente. Sem motivo claro. Em dezembro acaba de fazer um ano que ele morreu, mas parece que faz uns cinco. Talvez essa seja a maior prova de que eu esteja no caminho certo, botando em pr\u00e1tica a minha teoria. Talvez eu esteja preenchendo meus dias com tanta coisa, com tanta vida, que eu n\u00e3o v\u00e1 me arrepender de absolutamente nada quando a cortina se fechar, logo mais. Espero que o logo mais demore muito, mas se demorar pouco, eu sempre que me deito \u00e0 noite penso, e sinceramente que, at\u00e9 aqui, n\u00e3o tenho arrependimentos. Sei que ainda n\u00e3o vivi toda a minha vida, mas a que vivi at\u00e9 aqui foi maravilhosa e excelente. Tendo isso sempre em mente, tudo fica mais f\u00e1cil, me parece. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei direito porque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o bastante tranquila com a morte. Nem sempre foi assim. 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