{"id":497,"date":"2017-06-24T02:59:43","date_gmt":"2017-06-24T05:59:43","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=497"},"modified":"2017-06-24T16:51:36","modified_gmt":"2017-06-24T19:51:36","slug":"30h-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/06\/24\/30h-em-porto-alegre\/","title":{"rendered":"30h em porto alegre"},"content":{"rendered":"<p>Acabo de passar 30 horas em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0s 10h30 de quinta, parti \u00e0s 16h30 de sexta.<\/p>\n<p>Fiz toda essa m\u00e3o s\u00f3 pra tirar a segunda via do meu RG. A foto do primeiro, feito em 1994, derrete lentamente ao longo dos anos sob o efeito das subst\u00e2ncias contidas na espuma do Ibiza, cabar\u00e9 megaloman\u00edaco que ficava na praia ga\u00facha de Atl\u00e2ntida nos anos 90. N\u00e3o fiz uma nova carteira de identidade em S\u00e3o Paulo porque ela teria um n\u00famero diferente da original &#8211; e isso n\u00e3o me servia.<\/p>\n<p>Sim, imagino que voc\u00ea saiba que ainda n\u00e3o mudou esse esquema totalmente maluco no Brasil que possibilita que qualquer pessoa tenha at\u00e9 26 n\u00fameros de RG diferentes, um por estado.<\/p>\n<p>Mas enfim, eu n\u00e3o podia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o comprei uma passagem pra Porto Alegre cedo na quinta e fui direto at\u00e9 o Instituto Geral de Per\u00edcias, onde tinha marcado o hor\u00e1rio das 11h30 para encaminhar a segunda via. Cheguei uns quarenta minutos mais cedo e fui atendido logo em seguida. O atendimento todo n\u00e3o me tomou dez minutos: a atendente copiou os dados da certid\u00e3o de nascimento, perguntou meu endere\u00e7o, a minha altura, se eu tinha tatuagens (e, caso tivesse, onde ficavam), tirou uma foto, escaneou os dez dedos. Eu assinei duas vezes numa mesa digitalizadora, ela me perguntou se eu queria receber a carteira em 10 dias por 60 e poucos reais ou em at\u00e9 3 horas por 83,20. Eu n\u00e3o tinha dez dias, mas os vinte pila eu tinha.<\/p>\n<p>Paguei a taxa numa tabacaria parceira do IGP e do Banrisul a 200 metros dali e chamei um Cabify de 4 reais at\u00e9 a casa da minha m\u00e3e. O amig\u00e3o me passou um c\u00f3digo maluco que dava 100% de desconto em at\u00e9 R$ 3 mil em corridas at\u00e9 o dia 25 de junho, por\u00e9m n\u00e3o funcionou. Cheguei em casa \u00e0s 11h27, tr\u00eas minutos antes do momento em que deveria estar sendo atendido. A jornada se iniciava com uma enorme vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Na Medianeira, encontrei Sandrinha de chambre e trocamos longa ideia sentados no p\u00e1tio. Fazia sol, n\u00e3o muito calor. Tamb\u00e9m n\u00e3o fazia frio. Havia ramos de erva cidreira secos empilhados perto dos nossos p\u00e9s, e o cheiro que eles exalavam era muito bom. Sandrinha plantou muita coisa no p\u00e1tio. Matou outras coisas tamb\u00e9m. A cebola que ela enfiou na terra brotou lindona. O alho tamb\u00e9m &#8211; e que coisa aromaticamente deliciosa \u00e9 a folha do alho, ali\u00e1s. Tomate, salsinha, lim\u00e3o, manjeric\u00e3o, malva: tudo firme na pa\u00e7oca. Teve um alho por\u00f3 (ela fala <em>porr\u00f3<\/em>, que nem Flavito) que um passarinho (ou gato, talvez at\u00e9 rato) desenterrou do ch\u00e3o e levou embora. Isso ela diz.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Almo\u00e7amos num lugar chamado ABRACCIO, que abriu faz pouco no Praia de Belas. Italiano de rede, caro para o que serve, mas n\u00e3o \u00e9 de todo ruim. O p\u00e3o com azeite com ervas que servem de entrada (que basicamente \u00e9 a vers\u00e3o italiana do p\u00e3o preto com mel e manteiga do Outback) tem o seu mascability, por\u00e9m carnes, massas e sobremesas s\u00e3o apenas decentes. No pavor ou na pressa quebra um galho, por\u00e9m n\u00e3o manda uma brasa tremenda.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Sa\u00edmos do shopping levemente queimados, pouco depois das tr\u00eas e meia. Meu plano era estar de volta ao IGP antes das tr\u00eas, para dali rumar para um cart\u00f3rio, onde deveria executar a segunda parte da minha miss\u00e3o: obter uma c\u00f3pia autenticada.<\/p>\n<p>Essa odisseia toda come\u00e7ou porque eu precisava anexar uma c\u00f3pia autenticada de um documento de identidade a uma papelada destinada a certos fins. Tentei usar minha carteira de motorista, mas dois tabeli\u00e3es se recusaram a autenticar uma c\u00f3pia do documento porque o n\u00famero &#8216;1&#8217; da data &#8217;13\/08\/2017&#8242; estava praticamente apagado no original, e simplesmente n\u00e3o aparecia no xerox.<\/p>\n<p>Eu poderia &#8211; e deveria &#8211; renovar a carteira de motorista? L\u00f3gico que sim. Todavia, DETRAN\/SP n\u00e3o realiza a renova\u00e7\u00e3o de CNH de outro estado, de modo que teria as seguintes op\u00e7\u00f5es: a) solicitar uma transfer\u00eancia de CNH e, levando em conta que vence em menos de dois meses, logo em seguida renov\u00e1-la; b) tirar uma primeira via, provavelmente tendo que fazer aulas, cursos, pagar exames e coisas do tipo; c) ir at\u00e9 Porto Alegre s\u00f3 para renov\u00e1-la: que foi a primeira coisa em que eu pensei.<\/p>\n<p>Todavia tamb\u00e9m me ocorreu que esse processo, independente de ser realizado em Porto Alegre ou S\u00e3o Paulo, demoraria pelo menos uma semana &#8211; e eu precisava do documento meio que J\u00c1.<\/p>\n<p>Then came the RG solution.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Chegamos no IGP umas vinte, quinze pras quatro. N\u00e3o notei de primeira, mas aos poucos foi ficando mais claro que havia algo de estranho no ar. A sala parecia mais vazia, menos viva, embora houvesse agora muito mais gente do que quando havia passado por ali de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Tinha duas pessoas na minha frente na fila para retirar o documento pronto. No guich\u00ea ao lado, onde se iniciava o processo, uma fam\u00edlia vestida toda de Gr\u00eamio recebia instru\u00e7\u00f5es e reprimendas sobre o registro de um beb\u00ea. Reparei que o marido parecia indignado com a impossibilidade de fazer o RG da crian\u00e7a e, a princ\u00edpio, pensei que fosse por conta da sua idade por demais tenra. Mas a\u00ed eu percebi: o sil\u00eancio esquisito na sala vinha dos monitores, computadores e lumin\u00e1rias desligados. O IGP estava sem luz.<\/p>\n<p>Tinha uma pessoa na minha frente na fila pra retirar o documento pronto. Eu ouvia os funcion\u00e1rios justificando para os seus colegas e para os clientes que n\u00e3o havia previs\u00e3o de volta de luz ent\u00e3o n\u00e3o dava pra garantir mais o atendimento naquele dia. Algumas pessoas come\u00e7avam a ir embora, outras permaneciam im\u00f3veis e resolutas. Mais gente ia chegando. Uma funcion\u00e1ria disse algo como &#8220;t\u00e1, mas o que \u00e9 que a gente vai fazer com esse pessoal que t\u00e1 aqui e que n\u00e3o quer ir embora?&#8221; e um guardinha resolveu impedir que novas pessoas entrassem tentando puxar uma pantogr\u00e1fica de ferro pra bloquear a entrada.<\/p>\n<p>A funcion\u00e1ria que atendia o meu guich\u00ea ficou uns 10 segundos conversando com outra funcion\u00e1ria antes de olhar pra mim e, sem dizer uma palavra, pegar o comprovante de pagamento das minhas m\u00e3os e ir at\u00e9 o escaninho das identidades. Letra A. Ela puxa um bolo, dobra se fosse como um ma\u00e7o, e vai olhando as fotos como se contasse notas, at\u00e9 chegar na minha lata. Ela me alcan\u00e7a o documento, n\u00e3o me olha, e grita para o guardinha que n\u00e3o vai mais dar documento nenhum pra ningu\u00e9m, que hoje acabou.<\/p>\n<p>Nisso j\u00e1 brotou pequena confus\u00e3o l\u00e1 fora. Dez ou quinze pessoas gritando &#8220;\u00e9 brincadeira&#8221; e fazendo piadas de tioz\u00e3o agressivo. Eu fui a \u00faltima pessoa a retirar seu documento aquele dia. Sa\u00ed fincado e fiquei pensando: e se eu tivesse demorado dez minutos a mais no almo\u00e7o? Teria pago a taxa de &#8220;at\u00e9 3 horas&#8221; para retirar quase em 24. Isso n\u00e3o teria sido de todo mau, por\u00e9m teria ferrado com os meus planos.<\/p>\n<p>Mas nem precisou: quem ferrou com meus planos fui eu mesmo.<\/p>\n<p>Em vez de procurar um cart\u00f3rio, voltei pra casa com Sandrinha, fiquei de papo at\u00e9 meu irm\u00e3o chegar e, juntos, fomos jantar sushi no Bom Fim.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Bom mesmo o tal Samb\u00f4: peixe fresco e farto, e pratos quentes igualmente excelentes. Iscas de lula empanadas no panko, bolinhos de arroz com salm\u00e3o, polvo com cebola e ervilha torta: barbarica, my youth. Polvo, atum, salm\u00e3o, peixe branco: nada de extravagante, tudo muito gostoso. Arroz (sushi) \u00f3timo, alga crocante, quase nada de cream cheese em 30 e v\u00e1rios makis. Incomoda um pouco o atendimento surfista amig\u00e3o (acho meio palha for\u00e7ar intimidade), mas tamb\u00e9m n\u00e3o chega a estragar. T\u00e1 valendo pela fun\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque foram muito churros e meteram o jogo do Gr\u00eamio no tel\u00e3o totalmente na parceria telep\u00e1tica, posto que nem deu tempo de sugerir essa preza em tom de tro\u00e7a pra ver se colava.<\/p>\n<p>Na volta pra baia, vimos os \u00faltimos 20 minutos da M\u00e1quina Tricolor ganhando de 2 x 0 do Coritiba com o cl\u00e1ssico &#8220;gol do Fernandinho&#8221; (at\u00e9 onde eu me lembro, todos os gols do Fernandinho s\u00e3o exatamente iguais: um pombo sem asa na diagonal pra cima). Sentamos com a Sandrinha e fumamos uns buds e tomamos umas cevas na sala da nossa inf\u00e2ncia, que n\u00e3o \u00e9 mais a sala da nossa inf\u00e2ncia, s\u00f3 fica no mesmo lugar.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>No dia seguinte acordei cedo pra autenticar o documento que estalava de t\u00e3o novo. Fui at\u00e9 aquele cart\u00f3rio ali perto do HPS, quase na esquina da Ven\u00e2ncio com a Osvaldo, paguei 13 reais por uma fotoc\u00f3pia, dois selos, duas assinaturas &#8211; e n\u00e3o entendi muito bem porque o amig\u00e3o fez duas em vez de apenas uma, mas vamo que vamo. Em dado momento adentrou o recinto Ibsen Pinheiro. As pessoas o cumprimentaram e celebraram. &#8220;Esse \u00e9 um cara bom,&#8221; disseram. &#8220;Mas foi sacaneado.&#8221;<\/p>\n<p>Tinha ido de Cabify at\u00e9 o cart\u00f3rio, resolvi voltar de Cabify at\u00e9 em casa. Mas a\u00ed o sacaneado fui eu. E pelo Cabify. &#8220;Cart\u00e3o negado&#8221; era o que a mensagem dizia. &#8220;Entre em contato&#8221;. Tentei reiniciar o aplicativo. Deletei e baixei de novo. Cadastrei o cart\u00e3o mais uma vez. Ainda negado. Cogitei chamar um 99pop, mas: o servi\u00e7o ainda n\u00e3o opera em Porto Alegre. Uber eu n\u00e3o pego mais. T\u00e1xi por t\u00e1xi, pensei, n\u00e3o vou chamar no aplicativo, vou caminhando at\u00e9 um ponto que tem uns quatro ou cinco por aqui &#8211; e foi bem o que eu fiz.<\/p>\n<p>Taxista gigantesco com sotaque mastigado tinha cursado hist\u00f3ria e veio debatendo pol\u00edtica de um ponto de vista profundamente Gravata\u00ed &#8211; no bom sentido. Foi uma das grandes conversas que tive na vida. Deu vontade de filmar, mas tamb\u00e9m deu vontade de n\u00e3o desperdi\u00e7ar aquele momento desse jeito. Melhor fervendo na lembran\u00e7a, e s\u00f3.<\/p>\n<p>Sei que nisso tudo eu ainda escrevi pro suporte do Cabify (nota: 14h depois, ainda sem resposta) e a batera do celula foi comendo: solta.<\/p>\n<p>Fiquei um tempo em casa de bobeira trocando uma ideia com a Sandrinha at\u00e9 que deu uma e meia e resolvemos sair pra almo\u00e7ar. Na sa\u00edda reparei que persistia um movimento de guindastes e caminh\u00f5es e cones e oper\u00e1rios de capacete na nossa rua que tinha notado quando sa\u00ed mais cedo, mas n\u00e3o prestei muita aten\u00e7\u00e3o. Foi a Sandrinha quem apontou o que estavam fazendo: trocando os postes da rua. Que neg\u00f3cio maluco uma m\u00e1quina com um bra\u00e7o arrancando um POSTE do ch\u00e3o e colocando outro novo no lugar. Nunca tinha visto algo assim.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>\u00c9 um dos meus restaurantes afetivos, o Tirol. Fomos in\u00fameras vezes jantar em fam\u00edlia, e at\u00e9 a recep\u00e7\u00e3o da minha formatura foi l\u00e1. Mas n\u00e3o sei. Nos \u00faltimos anos tudo foi ficando mais triste pra mim. Hoje a salada estava murcha e cansada, e quase todas as carnes (entrecot, lombinho de porco, fil\u00e9) meio esturricadas e horr\u00edveis, com a honrosa exce\u00e7\u00e3o do contrafil\u00e9, que estava churros. Todavia que conceito o &#8220;rod\u00edzio de grelhados&#8221;. Acho que um dia at\u00e9 j\u00e1 foi, mas atualmente n\u00e3o \u00e9 mais pra mim esse lance de encher a cara de carne nesse n\u00edvel. N\u00e3o chega nem a fazer sentido, no fim das contas. Estava meio vazio, o sal\u00e3o, e Sandra Annenberg gritava com for\u00e7a as not\u00edcias, produzindo algum eco. Meio escuro, tamb\u00e9m me pareceu. Mas enfim: valeu pelo contrafil\u00e9.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Pegamos um t\u00e1xi pra voltar pra casa. Motivo: ciclofaixa. O Cabify que nos trouxe na vinda (chamado por Sandrinha) parou bem em cima dela, bem quando vinha um ciclista, e nenhum de n\u00f3s gostou da ideia de repetir a situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o atravessamos a rua e caminhamos alguns metros at\u00e9 uma esquina onde a ciclofaixa n\u00e3o chegava. Esperamos ali at\u00e9 aparecer um carro, fizemos sinal, entramos.<\/p>\n<p>Chegando em casa, minha primeira provid\u00eancia foi procurar uma tomada para carregar o celular, que estava com 7% de bateria \u00e0quela altura.<\/p>\n<p>Encaixei os pinos e: nada. Despluguei e repluguei as duas pontas, duas vezes, e ent\u00e3o troquei de tomada. Ao obter os mesmos resultados, me ocorreu acionar um interruptor. Nada aconteceu. O motivo? Como estavam trocando os postes da rua, est\u00e1vamos temporariamente sem luz. Era bastante \u00f3bvio, n\u00e9? Est\u00e1vamos sem telefone tamb\u00e9m. Sem internet. E, por algum motivo, sem 3G.<\/p>\n<p>Por uns dois segundos pensei: n\u00e3o acredito que n\u00e3o vou conseguir chegar no aeroporto.<\/p>\n<p>Todavia Sandrinha, por sorte, possu\u00eda tanto 57% de bateria no celular dela quanto um sinal 4G que, se n\u00e3o era dos mais robustos, pelo menos existia.<\/p>\n<p>Ordenamos a vinda de um Cabify, em pouco mais de meia hora eu estava pisando no terminal antigo do Salgado Filho e Sandrinha recebia o aviso de uma cobran\u00e7a de 20 e poucos pilas no seu celular. Procurei o balc\u00e3o para imprimir a passagem s\u00f3 para poder entrar na sala de embarque e, uma vez dentro, encontrei uma torre de tomadas, conectei meu celular e: n\u00e3o aconteceu nada.<\/p>\n<p>Entre todas as torres dispon\u00edveis, eu consegui escolher justamente a que n\u00e3o funcionava.<\/p>\n<p>Cerca de oito segundos depois estava sentado em outro lugar, com o celular plugado em outra tomada, sendo lentamente alimentado pela energia el\u00e9trica &#8211; que tamb\u00e9m havia acabado de ser restabelecida na Medianeira, me avisava Sandrinha.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>O voo estava totalmente lotado. Sentado ao meu lado veio um ot\u00e1rio que, n\u00e3o satisfeito em n\u00e3o desligar um celular quando as portas da aeronave se fecharam, n\u00e3o desligou DOIS, e veio, at\u00e9 o avi\u00e3o LITERALMENTE decolar, trocando ideia com umas tr\u00eas minas e conversando com algu\u00e9m que tinha feito alguma merda no trabalho com potencial de lhe foder muito feio, pelo que deu pra entender.<\/p>\n<p>Assim que o avi\u00e3o se aproximou da pista em Guarulhos ele j\u00e1 ligou os dois celulares. Num deles pipocaram uns vinte avisos sonoros e, em seguida, o outro tocou. Ele atendeu, de p\u00e9, abrindo o compartimento de bagagem enquanto uma aeromo\u00e7a pedia para que todos permane\u00e7am sentados at\u00e9 que o avi\u00e3o pare &#8211; alerta que ele ignorou solenemente.<\/p>\n<p>Todavia, o amig\u00e3o tinha um bom motivo para estar daquele jeito; pelo que deu pra entender, um mandado de pris\u00e3o contra ele havia sido expedido, e provavelmente ele sairia dali dentro de um cambur\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o t\u00f4 acreditando que vou sair daqui dentro de um cambur\u00e3o&#8221;, foi a \u00faltima coisa que ouvi ele dizer antes de descer pela porta traseira.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Eram quase 19h, e pensei que talvez fosse bem mais sensato matar um tempo comendo algo no aeroporto do que enfrentar o tr\u00e2nsito de volta pra casa bem na hora do rush. Ouvi algu\u00e9m falando no telefone enquanto mijava dizendo que ainda demoraria entre 1h30 e 2h para chegar em casa. Resolvi consultar o site da CET em busca de informa\u00e7\u00f5es e n\u00e3o me pareceu que o tr\u00e2nsito estivesse especialmente terr\u00edvel &#8211; principalmente levando em conta que era uma sexta, \u00e0 noite, e eu viajava no contrafluxo, querendo chegar em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A taxista era mulher, e me contou hist\u00f3ria extrema sobre como seu filho, que hoje estuda numa universidade americana gra\u00e7as a uma bolsa de estudos que ganhou pela sua habilidade com o futebol, quase se tornou v\u00edtima de uma quadrilha internacional de tr\u00e1fico de pessoas aos 18 anos de idade. Tamb\u00e9m me falou sobre o caso de uma menina que foi levada por uma estranha para um banheiro no aeroporto, onde teve seu cabelo cortado e a roupa trocada e depois sumiu sem deixar rastros.<\/p>\n<p>Pegamos bastante tr\u00e2nsito nos primeiros dois quil\u00f4metros, se tanto. Depois aliviou e veio macio. Em menos de uma hora eu estava em: casa.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Fiquei feliz de chegar em casa.<\/p>\n<p>Meio triste de n\u00e3o ter conseguido cumprir a terceira e \u00faltima fase da Miss\u00e3o Porto Alegre, que era: entregar a c\u00f3pia autenticada da identidade e todo o resto da papelada ao meu contador. Fiquei triste porque a tarefa agora ter\u00e1 de ser cumprida pelo meu irm\u00e3o que, no momento, est\u00e1 se estourando pra consertar o telhado da sua casa, e j\u00e1 est\u00e1 se fudendo bastante por conta disso.<\/p>\n<p>Mas enfim.<\/p>\n<p>Acontece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de passar 30 horas em Porto Alegre. Cheguei \u00e0s 10h30 de quinta, parti \u00e0s 16h30 de sexta. Fiz toda essa m\u00e3o s\u00f3 pra tirar a segunda via do meu RG. 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