{"id":423,"date":"2017-05-16T21:05:52","date_gmt":"2017-05-17T00:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=423"},"modified":"2017-05-16T21:05:52","modified_gmt":"2017-05-17T00:05:52","slug":"eu-tambem-fui-pau-no-cu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/05\/16\/eu-tambem-fui-pau-no-cu\/","title":{"rendered":"eu tamb\u00e9m fui pau no cu"},"content":{"rendered":"<p>Uma coisa muito dif\u00edcil de admitir, e pra si mesmo mais que para os outros, \u00e9 o seguinte: n\u00e3o fomos 100% bons ao longo de nossas vidas. N\u00e3o sei na cuca de voc\u00eas, mas na minha tem uma voz de fundo que parece ficar me dizendo o tempo todo que eu sou um cara bom, que eu s\u00f3 fa\u00e7o coisa legal, que estou do lado do que \u00e9 justo e do que \u00e9 certo o tempo todo. S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Pra absolutamente ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A primeira vez que me dei conta disso foi quando, ao reencontrar uma antiga paix\u00e3o numa tarde em que conversamos muito embalados por uma garrafa de vodca, ela me disse que me perdoava por algo que eu havia feito no passado. E o que eu havia feito: combinado de sair com ela e nunca ter aparecido. Parece algo muito trivial, mas, sendo oito anos mais jovem e, fervendo a febre da primeira paix\u00e3o, ela realmente esperou por mim aquela noite. E de uma maneira que talvez nenhuma outra mulher esperou ou v\u00e1 esperar por mim. Mobilizou a m\u00e3e e as irm\u00e3s, que ficaram exultantes com a not\u00edcia, escolheu roupa, tomou banho, botou perfume e ficou me esperando. Eu n\u00e3o apareci.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro porque fiz isso. N\u00e3o vem ao caso. Fiquei sabendo por uma de suas irm\u00e3s, pouco tempo depois, da minha mancada. A partir da\u00ed passei anos com vergonha, querendo me redimir de qualquer forma, buscando seu perd\u00e3o de todas as maneiras. E quando ela finalmente me deu eu pensei: pra qu\u00ea? Eu n\u00e3o sou perfeito. Ningu\u00e9m \u00e9. Ningu\u00e9m \u00e9 uma coisa s\u00f3, tamb\u00e9m. Em outras palavras, \u00e9 totalmente normal ser mau, aqui e ali, para uma pessoa essencialmente boa &#8211; tendo ou n\u00e3o consci\u00eancia disso. Do mesmo modo, para uma pessoa essencialmente m\u00e1 \u00e9 absolutamente aceit\u00e1vel que pratique um ou outro ato de bondade eventual ao longo da vida. \u00c9 da natureza humana.<\/p>\n<p>Digo isso porque na tarde de hoje, conversando com amigos de inf\u00e2ncia, lembrei de uma elei\u00e7\u00e3o para o Gr\u00eamio Estudantil do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, um pequeno estabelecimento de ensino\u00a0localizado num bairro de classe m\u00e9dia-baixa de Porto Alegre, no qual estudei todos os anos da minha vida. J\u00e1 n\u00e3o lembro mais quanto dessa estrat\u00e9gia foi elaborada por mim, quanto foi cria\u00e7\u00e3o coletiva, mas fato \u00e9 que usamos t\u00e1ticas altamente controversas para vencer essa elei\u00e7\u00e3o no final de 1995, e seguimos operando uma s\u00e9rie de desmandos enquanto estivemos no poder, em 1996.<\/p>\n<p>Pra come\u00e7ar, ao montar a chapa, convidamos pessoas de todas as s\u00e9ries e turnos poss\u00edveis, na tentativa de angariar a empatia do maior n\u00famero poss\u00edvel de votantes. Na hora de fazer a campanha corpo a corpo, nas turmas de magist\u00e9rio, frequentadas apenas por mulheres, mand\u00e1vamos apenas os caras mais populares, os bonit\u00f5es da \u00e9poca, com os quais todas queriam ficar. Nas turmas em que a predomin\u00e2ncia era masculina, quem passava eram as gatinhas da equipe. Nas turmas da tarde, alunos da tarde. Nas da manh\u00e3, alunos da manh\u00e3. Para neutralizar uma animosidade do terceiro ano para com o meu n\u00facleo de amigos, chamamos o camarada mais popular do col\u00e9gio, que era amigo de absolutamente todo mundo. Nas s\u00e9ries mais elementares (digamos, da terceira \u00e0 quinta), prometemos absurdos como distribui\u00e7\u00e3o livre de picol\u00e9s, balas e pirulitos para quem votasse em n\u00f3s (promessa que, naturalmente, jamais foi cumprida).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso fizemos algo um pouco menos reprov\u00e1vel, que tamb\u00e9m pode ser creditado pelo nosso resultado positivo: propaganda pol\u00edtica. Distribu\u00edmos adesivos com o logotipo da Chapa Dois e vendemos camisetas estampando o mesmo logotipo no peito, e um desenho do Scooby Doo vestindo a mesma camiseta nas costas &#8211; tudo ilustrado por mim. Ainda tenho algumas dessas camisetas, e ainda servem. Os anos me foram bem generosos. Ou melhor: eu fui generoso comigo mesmo.<\/p>\n<p>A jogada das camisetas foi um sucesso estrondoso: vendemos mais de uma centena\u00a0sem maiores esfor\u00e7os. Todo mundo queria desfilar com uma pelo col\u00e9gio. E ainda tinha um detalhe genial, que ainda n\u00e3o tenho certeza se j\u00e1 entendi a essa altura da vida, 22 anos depois, mas era o seguinte: havia duas cores de camiseta. As cinza eram restritas aos integrantes da chapa; as brancas, aos apoiadores. Muita gente queria fazer parte da chapa s\u00f3 pra ter uma camiseta cinza, mas ningu\u00e9m podia. The next best thing era a branca. Esgotaram em dois ou tr\u00eas dias. Que coisa poderosa \u00e9 o marketing bem feito.<\/p>\n<p>Tivemos vota\u00e7\u00e3o acachapante e, no ano seguinte, assumimos o GEG. L\u00e1, fizemos algumas coisas excelentes, como adquirir um computador para a sala do gr\u00eamio &#8211; dinheiro levantado vendendo rifas para o sorteio de bicicletas, mochilas e outros badulaques que conseguimos de forma mais ou menos Dori\u00e1tica (cof), na iniciativa privada, na base do gog\u00f3, sem contrapartida. Tamb\u00e9m criamos uma carteirinha do gr\u00eamio que, agora, n\u00e3o lembro mais para qu\u00ea servia, mas, se n\u00e3o me engano dava descontos na hora de solicitar a confec\u00e7\u00e3o da carteirinha de passagem escolar e na inscri\u00e7\u00e3o de eventos organizados pelo gr\u00eamio &#8211; campeonatos de futebol, basquete e v\u00f4lei, coisas do tipo. Mesmo assim, fizemos algumas coisas bastante horrendas, como desviar parte do caixa para a compra de salgadinhos e refrigerantes dos membros que passavam a tarde totalmente de bobeira naquela salinha. N\u00e3o foram grandes import\u00e2ncias, l\u00f3gico, mas aqui n\u00e3o interessa o tamanho do crime, mas pura e simplesmente o ato em si.<\/p>\n<p>Nada se compara, todavia, a algo em que eu n\u00e3o pensava h\u00e1 anos, talvez uns vinte, mas hoje voltou \u00e0 tona e me fez corar por alguns instantes. Eu e um amigo (que tamb\u00e9m integrava a chapa) ficamos respons\u00e1veis pelas camisetas. Fizemos tudo sozinhos, contando com a confian\u00e7a plena de todos os demais: eu ilustrei, ele or\u00e7ou as malharias, juntos escolhemos uma gr\u00e1fica e fomos encomendar o servi\u00e7o. Nesse processo, em algum momento, algu\u00e9m percebeu uma oportunidade de fraude. Acho at\u00e9 que n\u00e3o foi nenhum de n\u00f3s, e sim o cara da gr\u00e1fica ou da malharia, que ofereceu fornecer uma nota com valor alterado para que pud\u00e9ssemos embolsar parte da grana.\u00a0Que eu me lembre, vendemos as camisetas por um valor levemente mais alto do que pagamos por elas &#8211; j\u00e1 que a ideia era n\u00e3o ter lucro, apenas empatar custos. Eu e este amigo embolsamos algo como 300 reais cada, o que em 1995 era uma grana violent\u00edssima (o d\u00f3lar oscilava entre 80 e 95 centavos na \u00e9poca, de modo que\u00a0seriam\u00a0algo como MIL REAIS na cota\u00e7\u00e3o de hoje). Com esse dinheiro, paguei minha inscri\u00e7\u00e3o no vestibular da PUC (que fiz apenas para ver como era pois ainda tinha um ano do segundo grau pela frente &#8211; todavia passei, e com nota m\u00e1xima em reda\u00e7\u00e3o, feito que n\u00e3o repeti no ano em que fiz o vestibular pra valer, embora tamb\u00e9m tenha passado na segunda vez), comprei um \u00f3culos do surf, uma camiseta do surf e uma bermuda do surf &#8211; coisas que v\u00e1rios dos meus colegas tinham e eu sempre quis ter, mas meus pais nunca tinham dinheiro pra me comprar.<\/p>\n<p>Olhando em retrospecto, parte de mim fica triste, parte fica feliz por tudo isso. Queimar-se, machucar-se, estragar-se: tudo \u00e9 parte da vida tamb\u00e9m. Por algum motivo que n\u00e3o consigo elaborar muito bem usando a linguagem, \u00e9 bom saber que n\u00e3o sou puro. Que n\u00e3o sou perfeito. Que h\u00e1 uma gota de maldade encerrada em mim, e que talvez esteja apenas esperando a oportunidade certa para se manifestar novamente. Quem \u00e9 que sabe? Nem eu sei. S\u00f3 sei que pensar em todas essas coisas, reconhec\u00ea-las e admitir as culpas e remorsos sem medo n\u00e3o pareceu suficiente pra mim. Eu tive que vir aqui e contar tudo pra voc\u00ea (que eu nem sei quem \u00e9, mas que me l\u00ea agora).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma coisa muito dif\u00edcil de admitir, e pra si mesmo mais que para os outros, \u00e9 o seguinte: n\u00e3o fomos 100% bons ao longo de nossas vidas. N\u00e3o sei na cuca de voc\u00eas, mas na minha tem uma voz de fundo que parece ficar me dizendo o tempo todo que eu sou um cara bom, &hellip; <a href=\"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/05\/16\/eu-tambem-fui-pau-no-cu\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;eu tamb\u00e9m fui pau no cu&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dia-a-dia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=423"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":424,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423\/revisions\/424"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}