{"id":395,"date":"2017-04-27T19:23:41","date_gmt":"2017-04-27T22:23:41","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=395"},"modified":"2017-05-05T00:07:07","modified_gmt":"2017-05-05T03:07:07","slug":"nem-tudo-esta-perdido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/04\/27\/nem-tudo-esta-perdido\/","title":{"rendered":"nem tudo est\u00e1 perdido"},"content":{"rendered":"<p>Estou em Porto Alegre h\u00e1 algumas horas. O c\u00e9u est\u00e1 muito azul, o vento est\u00e1 muito frio e a cidade parece essencialmente a mesma, exceto por um pequeno detalhe estranho que me chamou a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ontem ouvi uma hist\u00f3ria curiosa da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Fal\u00e1vamos sobre a forte presen\u00e7a de imigrantes africanos na cidade, coisa que at\u00e9 uns 5 anos atr\u00e1s era algo incomum, e ela ent\u00e3o lembrou de um dia em que estava numa ag\u00eancia da Caixa no centro da cidade e avistou uma viatura da Brigada Militar se deslocando lentamente, com tr\u00eas policiais pendurados pro lado de fora da janela, brandindo fuzis e carabinas. Sentado na cal\u00e7ada \u00e0 frente da ag\u00eancia havia um negro de pele muito escura, com algumas frutas estendidas sobre um pano, uma vis\u00e3o cada vez mais recorrente na regi\u00e3o. Ao avistar esse homem, a viatura parou e um dos policiais apontou a arma em sua dire\u00e7\u00e3o. O africano congelou. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m, com receio de que o policial fizesse alguma coisa.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o deu tempo nem de tentar.<\/p>\n<p>Em quest\u00e3o de segundos a viatura estava cercada de populares, que batiam contra a lataria do carro e bradavam xingamentos diversos, al\u00e9m de repetir diversas vezes para que eles se preocupassem em ir atr\u00e1s de ladr\u00e3o, n\u00e3o de gente honesta que estava lutando pra sobreviver trabalhando. Assoberbados pelo levante, os policiais foram embora e o africano p\u00f4de voltar a vender suas frutas.<\/p>\n<p>Achei a hist\u00f3ria particularmente tocante por ter acontecido em Porto Alegre, onde o preconceito racial \u00e9 um pouco menos velado do que no resto do pa\u00eds. Segundo o depoimento da minha m\u00e3e, n\u00e3o foram pessoas jovens que partiram em defesa do homem, mas muita gente de idade, tanto comerciantes das redondezas quanto transeuntes, o que aumenta o espanto. Uma mulher bem velha, com dificuldades de caminhar, teria golpeado o cap\u00f4 do carro com os punhos fechados v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Curioso como nesses casos quem toma a frente quase sempre \u00e9 uma mulher. Pra mim faz sentido: um homem leva um tiro muito mais f\u00e1cil se tentar bater de frente com a pol\u00edcia. Aconteceu n\u00e3o faz nem um m\u00eas, no interior de Pernambuco, durante um protesto pedindo PAZ: havia dezenas de pessoas discutindo com a pol\u00edcia, um dos que aparentemente estava no comando escolheu um rapaz, chamou um soldado e mandou atirar nele. O rapaz recebeu um tiro na perna e veio a falecer alguns dias depois no hospital. Tudo isso aconteceu na frente das c\u00e2meras. O v\u00eddeo pode ser encontrado facilmente em diversos sites de not\u00edcia. Imagina s\u00f3 quando n\u00e3o tem ningu\u00e9m vendo.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, n\u00e3o sou contra a pol\u00edcia. Estou plenamente ciente de que o que faz de S\u00e3o Paulo uma cidade mais habit\u00e1vel que Porto Alegre atualmente \u00e9 a presen\u00e7a do efetivo policial nas ruas. Sempre que venho pra c\u00e1 fa\u00e7o o mesmo desafio: conto quantos dias preciso andar pela cidade at\u00e9 encontrar a primeira viatura ou brigadiano. Na m\u00e9dia s\u00e3o precisos pelo menos 3 dias para que isso aconte\u00e7a. Certa feita, num dezembro triste, passei inacredit\u00e1veis 11 dias andando pra cima e pra baixo, da zona sul \u00e0 zona norte, da leste \u00e0 oeste, a p\u00e9, de carro e \u00f4nibus at\u00e9 ver a primeira viatura verde musgo.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, a contagem nunca supera os 5 minutos.<\/p>\n<p>Dessa vez, todavia, fui recebido em minha terra com uma forte surpresa: menos de 2 minutos ap\u00f3s deixar o Aeroporto Salgado Filho avistei a primeira viatura. Depois disso ainda vi duplas de policiais patrulhando a Farrapos e a Goethe, viaturas (agora mais discretas, em branco) rondando diversos bairros e &#8211; como \u00f3bvia consequ\u00eancia &#8211; um n\u00famero muito, mas MUITO menor de indiv\u00edduos altamente suspeitos pelas ruas. Tudo numa corrida de menos de quarenta minutos entre o aeroporto e a Medianeira.<\/p>\n<p>Uma vez ouvi um argumento muito interessante acerca do papel da pol\u00edcia: \u00e9 terr\u00edvel que a popula\u00e7\u00e3o tenha se desacostumado a v\u00ea-los ao seu lado. Grande parte dessa distor\u00e7\u00e3o entra na conta da criminaliza\u00e7\u00e3o do uso de drogas, j\u00e1 que em pleno 2017 j\u00e1 ficou mais que evidente que os viciados n\u00e3o s\u00e3o um grupo et\u00e9reo hipot\u00e9tico, mas sim algo extremamente\u00a0homog\u00eaneo, que inclui nossos filhos e pais, amores e amigos. Outra parcela (bem menor) desse distanciamento decai sobre incompet\u00eancia, pregui\u00e7a, preconceito, despreparo e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em suma: claramente a pol\u00edcia que temos n\u00e3o \u00e9 a ideal, todavia sua extin\u00e7\u00e3o tampouco \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Um sonho dourado seria que as futuras gera\u00e7\u00f5es de policiais viessem cada vez mais despidas de preconceitos, fossem melhor treinadas e voltassem a se preocupar com o que os filmes e os livros me ensinaram que deveria ser o seu lema: proteger e servir. N\u00e3o sei se levo f\u00e9 nisso. N\u00e3o sei se levo f\u00e9.<\/p>\n<p>Todavia: quero muito acreditar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou em Porto Alegre h\u00e1 algumas horas. O c\u00e9u est\u00e1 muito azul, o vento est\u00e1 muito frio e a cidade parece essencialmente a mesma, exceto por um pequeno detalhe estranho que me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Ontem ouvi uma hist\u00f3ria curiosa da minha m\u00e3e. 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