{"id":362,"date":"2017-04-09T22:38:10","date_gmt":"2017-04-10T01:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=362"},"modified":"2017-04-10T15:33:40","modified_gmt":"2017-04-10T18:33:40","slug":"so-pra-registrar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/04\/09\/so-pra-registrar\/","title":{"rendered":"s\u00f3 pra registrar"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e1bado, \u00e0s 10 da manh\u00e3, a bordo de um micro-\u00f4nibus,\u00a0sentado ao lado do motorista e passando instru\u00e7\u00f5es\u00a0com o\u00a0GPS do meu celular, fui at\u00e9\u00a0um buffet\u00a0em Mairipor\u00e3, em plena\u00a0Serra da Cantareira, assistir\u00a0a uma presbiteriana coreana\u00a0casar com um\u00a0judeu russo\u00a0em cerim\u00f4nia cat\u00f3lica, a c\u00e9u aberto,\u00a0conduzida em coreano e ingl\u00eas com forte sotaque coreano por um p\u00e1roco que tamb\u00e9m \u00e9 tio da noiva, e que veio diretamente dos Estados Unidos s\u00f3 pra isso.<\/p>\n<p>A m\u00e3e do noivo, que \u00e9 uma senhorinha russa com ares de Palmirinha, estava vestindo uma roupa tradicional coreana, assim como a m\u00e3e da noiva e algumas outras mulheres importantes da fam\u00edlia. Apesar de usarem trajes ocidentais\u00a0durante a\u00a0cerim\u00f4nia, assim que ela acabou, os noivos tamb\u00e9m se puseram em\u00a0sensacionais trajes orientais maravilhosos inacredit\u00e1veis. Deu vontade\u00a0de casar com uma coreana s\u00f3 por causa disso (e olha que a tarefa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil; casar fora da comunidade &#8211; seja com algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 coreano ou simplesmente n\u00e3o \u00e9\u00a0da igreja &#8211; pode ser levemente dureza).<\/p>\n<p>Em dado momento, um duo formado por parentes distantes da noiva cantou uma can\u00e7\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica em ingl\u00eas e italiano, enquanto borboletas e insetos de cores variadas dan\u00e7avam por entre os convidados &#8211; efeito acidental da natureza, claro, bem como o som do vento nas folhas, dos cachorros ao longe, dos sapos no lago e das cacatuas tropicais. Os noivos e suas m\u00e3es despejaram areia colorida, em camadas intercaladas, num recipiente quadrado de vidro. O pai da noiva, com aspecto severo, fez discurso forte em coreano &#8211; que n\u00e3o foi traduzido e, portanto, compreendido apenas pela comunidade, que correspondia a uns 75-80% da plateia.<\/p>\n<p>Uma coisa curiosa que observei\u00a0sobre essa comunidade: aparentemente s\u00f3 assistiram \u00e0 cerim\u00f4nia sentados as mulheres, os muito jovens\u00a0e os muito idosos; v\u00e1rios patriarcas extremos, que eu chamaria at\u00e9 de machos-alfa do bando, ficaram de p\u00e9, atr\u00e1s dos bancos, trocando muita ideia em coreano e sendo cumprimentados com aceno de cabe\u00e7a pelos jovens adultos que passavam por ali. Outra coisa que notei foi que: capricharam MUITO no\u00a0almo\u00e7o, estes amig\u00f5es. S\u00f3 prato de mudo, pedreiro style. Muito respeito.<\/p>\n<p>De minha parte, n\u00e3o dei muita bola pras op\u00e7\u00f5es mais triviais do buffet, como o agnolini ao pomodoro, o fil\u00e9 ao molho madeira e\u00a0o arroz branco, e me grudei foi na barriga de porco grelhada (Jah have mercy) e nas loucurinhas coreanas que, sendo 100% sincero, nem sei se comi do jeito correto. Digo isso porque as loucurinhas coreanas se dividiam em duas categorias: o sushi coreano, um enrolado de alga com arroz, bardana, tofu, pepino japon\u00eas, bolo de peixe e omelete; e uns acepipes coloridos com pinta de doce, consist\u00eancia de chiclete e sabor indefin\u00edvel. Apesar de se chamar kimbap (descobri depois pesquisando), o sushi coreano eu adivinhei\u00a0o gosto que tinha, e meio que sabia como comer. J\u00e1 as guloseimas chamativas eu n\u00e3o fazia ideia\u00a0se existiam\u00a0na condi\u00e7\u00e3o de salgado ou doce, mas como havia uma \u00e1rea separada e exclusiva de sobremesas e essas bolinhas\u00a0estavam ali entre a salada e a cumbuca de feij\u00e3o, meio que chutei na primeira op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um desses bocaditos louqu\u00edssimos, descobri pesquisando, chama-se\u00a0songpyeon. Diz o texto desse site que s\u00e3o bolinhos de arroz gelatinoso recheados com pasta de castanha, o que descreve com precis\u00e3o terr\u00edvel o que comi. Era um bagulho bastante esquisito em todos os sentidos &#8211; apar\u00eancia, aroma, textura e sabor -, e tamb\u00e9m n\u00e3o sei se ajudou muito eu ter me alimentado\u00a0desse tro\u00e7o em conluio\u00a0com a carne. De todo modo, n\u00e3o tive vontade de repetir. O mesmo vale prumas outras bolinhas coloridas (verde, amarelo e rosa) de textura mais macia, embora similar, cobertas por algum tipo de farofa salgada e recheadas com uma pasta marrom que deduzi ser\u00a0feita de feij\u00e3o. Tinham cara de doce e eram, de fato, levemente adocicadas. Tamb\u00e9m era um bagulho muito sinistro. Mas o mais nervoso\u00a0de todos os bagulhos desse buffet era um PRISMA feito desse mesmo material glutinoso, metade verde, metade branco, com uma listra marrom no meio e gr\u00e3os de feij\u00e3o preto grudado \u00e0s voltas. Parecia uma esculturinha de Durepoxi. Embora tivesse textura semelhante aos demais, tinha um gosto muito louco, dif\u00edcil de entender e explicar e foi, disparado, o que menos me agradou. Uma mordida e eu j\u00e1 sabia que n\u00e3o era pra mim.<\/p>\n<p>NOTA DO AUTOR: em pesquisa mais profunda (35 segundos de dura\u00e7\u00e3o) descobri que essas guloseimas se chamam tteok, s\u00e3o itens\u00a0indispens\u00e1veis de um card\u00e1pio festivo na Cor\u00e9ia e podem ser consumidas tanto como sobremesa quanto\u00a0refei\u00e7\u00e3o. Sempre relembrando Mara Maravilha: n\u00e3o tem um s\u00f3 dia que se passe que voc\u00ea n\u00e3o aprenda uma coisa nova. Boto f\u00e9.<\/p>\n<p>Destaque inesperado desse\u00a0casamento foi um <em>food truck<\/em>\u00a0t\u00e3o paulistano que fora batizado de KOMBOSA, servindo\u00a0vasta gama de\u00a0sabores de milk shake, diversos deles com nomes engra\u00e7adinhos. Antes do almo\u00e7o, por exemplo, me aproximei do estabelecimento e ordenei um L\u00c1 VEM O NEG\u00c3O s\u00f3 pra ouvir eles gritando bem alto, receita que\u00a0levava chocolate em meia d\u00fazia de estados f\u00edsicos da mat\u00e9ria (creme, chip, farelo). Muito bom.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s encerrar o \u00faltimo gole, me aproximei do bar e pedi um <em>long island iced tea<\/em> pra menina que preparava os coquet\u00e9is.\u00a0Ela perguntou se eu j\u00e1 havia almo\u00e7ado. Eu n\u00e3o havia almo\u00e7ado, mas me sentia suficientemente alimentado pelo milk shake. Resolvi n\u00e3o mentir. &#8220;N\u00e3o almocei por\u00e9m sou adulto, sei que o drink \u00e9 forte, t\u00e1 tudo bem.&#8221; Ela achou que eu estava fazendo pouco do poder alco\u00f3lico da po\u00e7\u00e3o que estava prestes a mesclar, de modo que resolveu dar uma apimentada na nossa rela\u00e7\u00e3o: &#8220;T\u00e1 achando\u00a0fraco, \u00e9? Ent\u00e3o vou te preparar um Adi\u00f3s Motherfucker.&#8221;<\/p>\n<p>NOTA DO AUTOR: Eu n\u00e3o tinha achado fraco.<\/p>\n<p>Todavia, o camarada que preparava drinks ao lado da menina, antes que eu pudesse falar qualquer coisa j\u00e1 disse algo como &#8220;Nossa, n\u00e3o \u00e9 nem uma da tarde e voc\u00ea j\u00e1 vai preparar o primeiro\u00a0Adi\u00f3s Motherfucker do dia?&#8221;, aparentemente desafiando a l\u00f3gica, ignorando completamente o fato do casamento ter sido realizado de manh\u00e3. Meio sem paci\u00eancia de dar muita trela praquela tchurminha,\u00a0acabei embarcando em sua pantomima. &#8220;Beleza, vamos l\u00e1, faz a\u00ed teu drink,&#8221; eu disse pra mina, que come\u00e7ou a preparar a bebida, toda orgulhosa. O tal Adi\u00f3s Motherfucker consistia de uma dose de vodca, uma de gim, uma de cura\u00e7ao blue, uma de tequila e uma de cacha\u00e7a. Not that big of a deal, se voc\u00ea me perguntar, mas enfim. Na sequ\u00eancia daquela conversa\u00a0entreouvi esse mesmo camarada barman explicando prumas minas que o drink mais forte que ele j\u00e1 tinha criado se chamava ESTUPRO COLETIVO, mas a\u00ed eu meio que desliguei o c\u00e9rebro e sa\u00ed de perto porque tudo tem limite.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei muito bem como encerrar esse relato, de modo que vou encerr\u00e1-lo desse jeito, com um\u00a0par\u00e1grafo sup\u00e9rfluo, cuja \u00fanica fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a de dar um fim digno a o que &#8211; pelo menos eu &#8211; estou considerando um bom texto. Portanto: FIM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e1bado, \u00e0s 10 da manh\u00e3, a bordo de um micro-\u00f4nibus,\u00a0sentado ao lado do motorista e passando instru\u00e7\u00f5es\u00a0com o\u00a0GPS do meu celular, fui at\u00e9\u00a0um buffet\u00a0em Mairipor\u00e3, em plena\u00a0Serra da Cantareira, assistir\u00a0a uma presbiteriana coreana\u00a0casar com um\u00a0judeu russo\u00a0em cerim\u00f4nia cat\u00f3lica, a c\u00e9u aberto,\u00a0conduzida em coreano e ingl\u00eas com forte sotaque coreano por um p\u00e1roco que tamb\u00e9m \u00e9 &hellip; <a href=\"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/04\/09\/so-pra-registrar\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;s\u00f3 pra registrar&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-362","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dia-a-dia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/362","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=362"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":366,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/362\/revisions\/366"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}