{"id":344,"date":"2017-03-16T14:40:53","date_gmt":"2017-03-16T17:40:53","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=344"},"modified":"2017-03-16T14:40:53","modified_gmt":"2017-03-16T17:40:53","slug":"tirando-o-chapeu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/03\/16\/tirando-o-chapeu\/","title":{"rendered":"tirando o chap\u00e9u"},"content":{"rendered":"<p>Moro num bairro bom de S\u00e3o Paulo, o que significa muita seguran\u00e7a, tranquilidade, limpeza e v\u00e1rias\u00a0op\u00e7\u00f5es de lazer, embora, infelizmente, tamb\u00e9m venha acompanhado de uma dose generosa da mais pura verminose. H\u00e1 um grande n\u00famero de ricos nas cercanias, e isso faz com que seja poss\u00edvel observar todo tipo de cena triste, como gar\u00e7om sendo mal tratado, aquela porra daquela caminhonete da Porsche desrespeitando sinal de tr\u00e2nsito e ainda se achando no direito e, principalmente, pessoas constrangedoramente vestidas com su\u00e9ter com as mangas amarradas no peito, camisa polo bordada e mocassim sem meia.<\/p>\n<p>Hoje, todavia, aconteceu um tro\u00e7o t\u00e3o massa que fiquei at\u00e9 meio mexido, achando que, numa dessas, quem sabe, o ser humano ainda tem jeito.<\/p>\n<p>Pois bem.<\/p>\n<p>Almo\u00e7o quase todo dia num lugar que convencionei chamar de GAUCH\u00c3O. \u00c9 o quilo mais barato do bairro (o que n\u00e3o chega a ser grande vantagem, j\u00e1 que todos os quilos num raio de at\u00e9 1km do nosso lar aqui servem comida fresca, de muito boa qualidade, e esse \u00e9 no m\u00e1ximo uns 3 reais mais barato que a m\u00e9dia, por exemplo). Elegi este local n\u00e3o s\u00f3 pelo pre\u00e7o, mas, principalmente, pelo maravilhoso combo diferencial: a) os donos s\u00e3o ga\u00fachos; b) eles possuem churrasqueira; c) eles sabem comprar e assar a carne.<\/p>\n<p>Assim como eu, o ex-jogador William, com passagens pelo meu Gr\u00eamio querido e o Corinthians de v\u00e1rios amigos, costuma almo\u00e7ar l\u00e1 com muita regularidade. Um dos donos me disse certa feita que se trata de pessoa muito simples, acess\u00edvel e de bom cora\u00e7\u00e3o &#8211; o que j\u00e1 se pode verificar s\u00f3 pelo fato do cara almo\u00e7ar quase todo dia num restaurante de comida a quilo de chinelo e bermuda.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava eu quase encerrando meu prato composto por farta salada (alface americana, r\u00facula, cebola, tomate, cenoura e pepino), um peda\u00e7o de peito de frango, um de lingui\u00e7a apimentada (feitos na brasa) e um naco generoso de linguado \u00e0 milanesa (R$ 16) quando avisto, no reflexo da porta de vidro &#8211; posto que estava sentado na \u00e1rea externa, de costas para a rua &#8211; William chegando, acompanhado de uma mulher.<\/p>\n<p>Literalmente segundos ap\u00f3s a entrada do ex-jogador, um morador de rua de legging roxa, moletom preto de capuz, um cabelo imposs\u00edvel de descrever com as palavras que possu\u00edmos e voz, trejeitos e aura de travesti, postou-se ao lado da porta na tentativa de mendigar um almo\u00e7o de alguma alma caridosa.<\/p>\n<p>A primeira pessoa que passou por ele era um cara de coque masculino e barba que, num primeiro momento, parecia ter dado aquela desculpa cl\u00e1ssica do &#8220;n\u00e3o tenho nada&#8221; ao amendigado cidad\u00e3o, que seguiu parado na entrada. Outras duas ou tr\u00eas pessoas que passaram por ele nem sequer registraram sua presen\u00e7a, ignoraram seus apelos e seguiram caminhando pelo p\u00e1tio em dire\u00e7\u00e3o ao buffet.<\/p>\n<p>Nisso, a mulher que estava junto com o William sentou-se numa mesa \u00e0s minhas costas. Notei, ainda pelo reflexo, que o morador de rua, motivado ou por fome extrema ou por falta de vergonha, aventurou-se pelo p\u00e1tio e foi at\u00e9 ela, pronunciar a seguinte frase:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sei nem como \u00e9 que eu vou fazer pra te pedir o que eu queria te pedir.&#8221;<\/p>\n<p>Ela nem deixou ele terminar, pediu para que ele a esperasse, interrompeu o almo\u00e7o (talvez tenha dado tempo de dar uma garfada, n\u00e3o vi), pegou um dos potes de isopor que o pessoal usa para fazer suas quentinhas e come\u00e7ou a ench\u00ea-lo de comida.<\/p>\n<p>Instantes depois, reparei, ainda no reflexo, que o morador de rua foi se afastando at\u00e9 sumir do campo de vis\u00e3o, talvez n\u00e3o acreditando que a mulher fosse mesmo lhe trazer comida, ou pior: supondo que ela reclamaria da sua presen\u00e7a para os donos do restaurante (que \u00e9 algo que certamente acontece bastante por estes lados). Enquanto isso, o rapaz de coque masculino sa\u00eda do restaurante. A princ\u00edpio achei que ele tinha examinado as op\u00e7\u00f5es do buffet e desistido de comer ali, dada a velocidade com que entrou e saiu do Gauch\u00e3o.<\/p>\n<p>Paguei a minha conta enquanto a mulher pesava o pote de isopor e anotava o valor na sua comanda. Quando finalmente cheguei na porta, ela estava parada, olhando em volta, com o pote na m\u00e3o, procurando pelo mendigo. Aquele gesto j\u00e1 tinha dado um bom upinha no dia do Dido, mas o que aconteceu logo em seguida\u00a0me deixaria ainda mais impressionado. N\u00e3o tinha me afastado nem dez metros do restaurante quando avisto o rapaz de coque masculino vindo ao meu encontro, descendo a rua em dire\u00e7\u00e3o ao restaurante. Ao seu lado: o mendigo traveco do crack.<\/p>\n<p>Neste momento vale lembrar que a mulher que acompanhava o jogador William e este rapaz de coque masculino n\u00e3o se conheciam e nem haviam combinado coisa alguma. Ou seja, basicamente o que aconteceu foi que: n\u00e3o uma como DUAS pessoas que habitam este bom bairro (por\u00e9m meio verme) de S\u00e3o Paulo resolveram mudar o curso dos seus dias para ajudar uma pessoa que, via de regra, costuma ser ignorada, destratada ou expulsa o mais r\u00e1pido poss\u00edvel dali. Cara, o\u00a0maluco do coque chegou a SAIR do restaurante e IR\u00a0ATR\u00c1S DO MALUCO at\u00e9 encontr\u00e1-lo, s\u00f3 pra levar ele de volta pra comer.<\/p>\n<p>Foi talvez a coisa mais bonita que vi a semana toda, talvez esse m\u00eas &#8211; talvez at\u00e9 mesmo esse ano.<\/p>\n<p>Ao chegar em casa, abri meu arm\u00e1rio, peguei um chap\u00e9u, coloquei na cabe\u00e7a e depois tirei, em homenagem a esses dois her\u00f3is an\u00f4nimos do Higien\u00f3polis.<\/p>\n<p>(Nota: embora eu gravite bastante por Higien\u00f3polis e more a cerca de 50m da linha divis\u00f3ria do bairro, tecnicamente aqui \u00e9 Vila Buarque ou Santa Cec\u00edlia &#8211; embora as imobili\u00e1rias chamem de &#8220;Baixo Higien\u00f3polis&#8221; ou at\u00e9 mesmo de Higien\u00f3polis, pra ganhar uns cobres no aluguel)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moro num bairro bom de S\u00e3o Paulo, o que significa muita seguran\u00e7a, tranquilidade, limpeza e v\u00e1rias\u00a0op\u00e7\u00f5es de lazer, embora, infelizmente, tamb\u00e9m venha acompanhado de uma dose generosa da mais pura verminose. 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