{"id":278,"date":"2017-02-03T13:36:13","date_gmt":"2017-02-03T16:36:13","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=278"},"modified":"2017-02-04T19:32:13","modified_gmt":"2017-02-04T22:32:13","slug":"o-cacador-de-estrela","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/02\/03\/o-cacador-de-estrela\/","title":{"rendered":"o ca\u00e7ador de estrelas"},"content":{"rendered":"<p>Dia 15 de dezembro de 2016 fez um ano que o Flavito morreu.<\/p>\n<p>Hoje acordei com uma d\u00favida atroz, a mesma que j\u00e1 havia me fustigado os gargomilhos na manh\u00e3 de ontem: era no dia 2 ou 3 de fevereiro o seu anivers\u00e1rio? Pareceu esquisito n\u00e3o possuir mais essa certeza, e fiquei o dia inteiro me perguntando\u00a0se devia\u00a0ou n\u00e3o ligar para minha m\u00e3e ou pro meu irm\u00e3o para tirar a teima. No fim n\u00e3o liguei. Deixei quieto.\u00a0De repente me ocorreu que n\u00e3o fazia muita diferen\u00e7a de qualquer forma lembrar o dia do anivers\u00e1rio de algu\u00e9m que j\u00e1 se foi. Especialmente no caso do Flavito, posto que penso no meu pai: todo santo dia.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que eu queria aproveitar essa data (ou a de ontem, talvez) para contar uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sendo assim, l\u00e1 vai:<\/p>\n<p>Impressionante como Flavito segue criando coisas bonitas apesar da tremenda desvantagem de estar morto.<\/p>\n<p>Ano passado tivemos um Natal e um Ano Novo bem esquisitos em fam\u00edlia, e n\u00e3o poderia ter sido\u00a0diferente levando em conta que o hav\u00edamos perdido h\u00e1 poucas semanas.<\/p>\n<p>Desde que me conhe\u00e7o por gente ele sempre foi a alma da festa. A esmagadora maioria dos Natais dos Pontes-Czarnobai (e de v\u00e1rios outras combina\u00e7\u00f5es de Pontes e Czarnobai) se deram na nossa casa. Era ele quem mais fazia quest\u00e3o. Como gostava de dar uma festa, aquele polaco safado! Como gostava de cozinhar pros outros, escolher a m\u00fasica, acolher\u00a0quem chegava com um uisquinho, uma vodca, uma mesa cheia de aperitivos. Tinha sido meu Papai Noel da inf\u00e2ncia, e da inf\u00e2ncia do meu irm\u00e3o e de tantas outras crian\u00e7as depois que deixamos de acreditar na fantasia. Cozinhava bem pra caralho, e sabia receber como poucos. Se eu disser que aprendi tudo que sei com ele estaria mentindo, porque mais sabe o diabo por ser velho do que ser o diabo, e mestre como era, tenho certeza de que jamais entregou todo o jogo.<\/p>\n<p>Este ano, pra dar uma refrescada em nossos cora\u00e7\u00f5es e dar in\u00edcio a uma nova tradi\u00e7\u00e3o, resolvemos fazer a festa de Natal na minha casa, que agora \u00e9, e pelos \u00faltimos cinco anos tem sido, um apartamento em Santa Cec\u00edlia, na gigantesca cidade de S\u00e3o Paulo. Viriam minha m\u00e3e, meu irm\u00e3o, a m\u00e3e da Marcela e um de seus irm\u00e3os. N\u00e3o era ainda o time completo, mas tudo bem: j\u00e1 era um come\u00e7o. Sem\u00a0entrar nos pormenores da festa, seus bastidores e resultados, direi apenas que foi um grande sucesso. Flavito teria ficado tremendamente orgulhoso. Certamente seria a pessoa que mais teria gostado de tudo se tivesse podido estar aqui em corpo &#8211; posto que em esp\u00edrito certamente estava presente.<\/p>\n<p>Antes disso, entretanto, aconteceria algo que me faria lembrar que os principais ensinamentos que um pai pode deixar para um filho s\u00e3o as coisas que n\u00e3o s\u00e3o ditas, que se entranham profundamente na nossa carne e l\u00e1 dentro ficam agindo pra sempre, em sil\u00eancio, at\u00e9 que se evidenciam de surpresa, e no momento certo.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Voltemos a dezembro de 2015.<\/p>\n<p>Cinco dias ap\u00f3s a morte de Flavito, um dos irm\u00e3os dele, o Tio Fernando, estava em sua casa (curiosamente tamb\u00e9m um apartamento em S\u00e3o Paulo, embora n\u00e3o em Santa Cec\u00edlia) cozinhando o luto\u00a0quando teve um estalo. Lembrou, de repente, de toda a melodia e grande parte da letra de uma m\u00fasica que Flavito havia composto no come\u00e7o dos anos 70, para algum tipo de festival que faziam na PUC\/RS.<\/p>\n<p>Totalmente em chamas com essa lembran\u00e7a repentina, Tio Fernando teve uma ideia. Entrou em contato com um dos filhos, o Cl\u00e1udio, que mora em Santiago do Chile, e ensinou a melodia da guitarra pra ele. Falou tamb\u00e9m com a Fernanda, a outra filha, que mora em Berlin, e ela elaborou uma linha de baixo. Meus primos, que tocaram por anos em diversas bandas de punk e metal, ativaram seus contatos em S\u00e3o Paulo e conseguiram horas de est\u00fadio para que o Tio Fernando gravasse os vocais.\u00a0O baterista da banda punk Calibre 12 operou a bateria.<\/p>\n<p>No dia 18 de dezembro de 2016, Tio Fernando fez um churrasco. A casa estava cheia, e as barrigas de todos tamb\u00e9m. Tom\u00e1vamos caf\u00e9. L\u00e1 pelas tantas ele disse &#8220;Andr\u00e9, escuta s\u00f3 esse som.&#8221; Ele sempre me apresentou uns sons altamente furiosos &#8211; Me&#8217;Shell Ndgeocello e El Cuarteto de N\u00f3s, entre outros -, ent\u00e3o eu j\u00e1 esperava que gostaria do que quer que ele fosse tocar ali.<\/p>\n<p>O som come\u00e7ou e era, de fato, muito excelente.<\/p>\n<p>Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi perguntar: &#8220;De quem \u00e9 isso?&#8221;<\/p>\n<p>Ele deu o Sorrisinho Czarnobai. O Sorrisinho Czarnobai \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o provavelmente milenar, certamente secular, que consiste em cerrar os dentes, abrir a boca e manter os dentes na mesma posi\u00e7\u00e3o, fazendo um mandrake com os olhos e a cabe\u00e7a que a\u00ed \u00e9 mais dif\u00edcil de explicar &#8211; mas se voc\u00ea j\u00e1 viu alguma vez voc\u00ea sabe exatamente como \u00e9. Usa-se esse expediente de muitas maneiras, geralmente humorosas, mas a principal delas \u00e9 quando tu n\u00e3o sabe que n\u00e3o pode responder aquela pergunta naquele momento. Seja pra n\u00e3o dar o bra\u00e7o a torcer, n\u00e3o se entregar numa discuss\u00e3o, n\u00e3o admitir um pequeno deslise ou n\u00e3o estragar uma surpresa. Nesse caso, claro, era o \u00faltimo caso.<\/p>\n<p>&#8220;Depois te conto,&#8221; ele disse.<\/p>\n<p>At\u00e9 essa altura eu n\u00e3o suspeitei de nada.<\/p>\n<p>Ouvi mais um pouco, estava come\u00e7ando a balan\u00e7ar a cabe\u00e7a, achando o som realmente muito bom. Insisti.<\/p>\n<p>&#8220;Muito bom, mesmo. Mas s\u00e9rio, de quem \u00e9 isso?&#8221;<\/p>\n<p>Novo Sorrisinho Czarnobai. Novo &#8220;Depois\u00a0te conto.&#8221;<\/p>\n<p>Aqui eu j\u00e1 comecei a suspeitar. Sabendo que meus primos s\u00e3o m\u00fasicos, me ocorreu que talvez eles tivessem feito uma m\u00fasica pra tocar entre eles. Todavia, neste momento\u00a0ainda era apenas um pensamento, uma possibilidade muito remota.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed entrou o refr\u00e3o. Essa parte \u00e9 muito forte, o baterista arrebenta com tudo, a guitarra faz uma firula muito espetacular, e o vocal acrescenta uma camada de emo\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de ignorar. Achei realmente bom pra caralho e tive algum tipo de rea\u00e7\u00e3o f\u00edsica muito forte, contorcendo os bei\u00e7o pra baixo e franzindo a testa (aka &#8220;the bass face&#8221;) enquanto agitava a cabe\u00e7a e o corpo com mais for\u00e7a e dizia algo como &#8220;Bah, muito bom isso a\u00ed. O que que \u00e9?&#8221;<\/p>\n<p>A\u00ed o Tio Fernando n\u00e3o se aguentou e revelou que era a: Czarnoband.<\/p>\n<p>&#8220;Isso a\u00ed sou eu cantando, certo? E o Cl\u00e1udio na guitarra e a Fernanda no baixo. E o Oscar, o Czarnobai honor\u00e1rio, na batera.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Caralho, muito bom. A m\u00fasica \u00e9 de voc\u00eas mesmo?&#8221;<\/p>\n<p>Da\u00ed esse momento foi pra quebrar.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 do Flavito.&#8221;<\/p>\n<p>CARALHO.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, minha tia e a Marcela choravam copiosamente. Eu tive uma crise de riso, uma alegria muito esmagadora, dif\u00edcil de definir. Era mesmo boa pra caralho aquela m\u00fasica, e era o meu pai quem tinha feito. Puta que pariu.<\/p>\n<p>Tio Fernando passou alguns minutos explicando todo o processo que levou UM ANO, envolvendo guitarras gravadas no Chile, baixo na Alemanha e algumas visitas a um est\u00fadio pra gravar os vocais. Em seguida, entregou um CD, com um encarte, para cada um de n\u00f3s, contendo letra, hist\u00f3ria e algumas fotos incr\u00edveis, que eu nunca tinha visto, uma delas meu pai com uns 20 e pouquinhos, ao lado do Henrique &#8220;Tapeceiro&#8221;, seu grande amigo de anos e anos, os dois de terninhos, com um viol\u00e3o no joelho, compondo e cantando.<\/p>\n<p>Era exatamente o tipo de coisa que meu pai fazia.<\/p>\n<p>Uma das coisas mais tradicionais das festas de Natal eram justamente esses presentes artesanais que o Flavito aprontava. Um ano era uma fita VHS com os melhores momentos dos almo\u00e7os de fam\u00edlia, outro era um DVD com todas as fotos digitalizadas do come\u00e7o dos anos 70 at\u00e9 a metade dos anos 2000, no outro uma cacha\u00e7a de buti\u00e1, no outro uma caponata, e assim por diante. A principal caracter\u00edstica desses presentes, entretanto,\u00a0eram as embalagens e os encartes. Sempre havia textos muito maravilhosos e uma diagrama\u00e7\u00e3o que imitava o produto real, mas com os seus toques pessoais. \u00c9 famosa a hist\u00f3ria da vez em que uma garrafa de cacha\u00e7a de pitanga s\u00f3 embarcou no avi\u00e3o porque os funcion\u00e1rios da alf\u00e2ndega acharam que o selo do Minist\u00e9rio da Agricultura e o c\u00f3digo de barras eram genu\u00ednos.<\/p>\n<p>Tio Fernando foi l\u00e1 e fez a mesma coisa.<\/p>\n<p>Foi uma forma muito bonita de manter viva uma tradi\u00e7\u00e3o que tinha come\u00e7ado com o Flavito, e uma das primeiras vezes na vida que ficou muito claro pra mim o significado de fam\u00edlia. Ali tinha envolvido amor de irm\u00e3o, de pai, de m\u00e3e, de tio e tia, sobrinho e sobrinha, primo e prima, cunhado e cunhada, sogra e sogra, nora e genro. Estava tudo ali. Sinto Flavito muito presente em minha vida todos os dias desde sempre, mas naquele momento sua presen\u00e7a foi ainda mais forte. Parecia mesmo que ele estava ali. E, de certa forma, ele estava. Quer dizer, foi ele quem nos ensinou a fazer as coisas assim, a amar desse jeito, a dividir nosso cora\u00e7\u00e3o com os outros dessa forma.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, ouvi essa m\u00fasica pelo menos umas dez vezes por dia. Toda vez que chegava no refr\u00e3o, eu tinha uma crise de choro muito intensa. Em parte porque eu ficava triste de ele n\u00e3o estar mais aqui, em parte porque eu ficava feliz por tudo que ele representava ainda estar aqui, em parte por simplesmente me sentir esmagado demais por toda a beleza do gesto &#8211; e porque a m\u00fasica era realmente boa pra caralho ainda por cima.<\/p>\n<p>Meu lado m\u00edstico teve muita dificuldade em ignorar a forte possibilidade de tudo isso ter sido, no fundo, uma manobra orquestrada pelo Fantasma de Flavito em pessoa, posto que era tudo muito ELE aquilo ali. A letra da m\u00fasica, ent\u00e3o, falando sobre vida e morte, do jeito que fala, putalamerda.<\/p>\n<p>Meu lado racional, por outro lado, fica imaginando o papel decisivo que a baixa confiabilidade da mem\u00f3ria somado \u00e0 for\u00e7a descomunal das emo\u00e7\u00f5es podem ter exercido nesse epis\u00f3dio, fazendo o meu tio, de forma quase acidental, criar uma letra carregada desses signos que conversam nesse n\u00edvel quase transcendental conosco.<\/p>\n<p>A verdade provavelmente est\u00e1 no meio das duas coisas, a\u00ed.<\/p>\n<p>De qualquer forma, a m\u00fasica \u00e9 essa:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"840\" height=\"400\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?visual=true&#038;url=https%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F299575554&#038;show_artwork=true&#038;maxwidth=840&#038;maxheight=1000\"><\/iframe><\/p>\n<p>Recomendo a audi\u00e7\u00e3o acompanhada da leitura da letra.<\/p>\n<p>No mais \u00e9 isso.<\/p>\n<p>FLAVITO ETERNO: AME-O OU DEIXE-O.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia 15 de dezembro de 2016 fez um ano que o Flavito morreu. 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