{"id":222,"date":"2017-01-03T12:27:17","date_gmt":"2017-01-03T15:27:17","guid":{"rendered":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/?p=222"},"modified":"2017-01-03T12:27:17","modified_gmt":"2017-01-03T15:27:17","slug":"tinnitus","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/qualquer.org\/dids\/2017\/01\/03\/tinnitus\/","title":{"rendered":"Tinnitus"},"content":{"rendered":"<p>Que eu me lembre, a primeira vez que ouvi falar de <em>tinnitus<\/em>\u00a0foi por volta de 2002, depois de publicar no meu primeiro blog, <em>One Hundred Percent Chongas<\/em>,\u00a0um relato sobre uma noite fort\u00edssima de drum&#8217;n&#8217;bass no saudoso por\u00e3o do Fim de S\u00e9culo (que j\u00e1 se chamava NEO a essa altura). Ao descrever um inc\u00f4modo por\u00e9m passageiro efeito colateral da m\u00fasica alta como um apito discreto no fundo do ouvido, algu\u00e9m nos coment\u00e1rios me avisou que essa sensa\u00e7\u00e3o possu\u00eda um nome.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, experimentei diversas vezes esse apito discreto no fundo do ouvido. Em mais de 90% dos casos estava diretamente relacionado \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o a m\u00fasica muito alta por muito tempo. Era bastante comum sair de uma festa ou show com os ouvidos estourados, meio entupidos, e nas horas seguintes experimentar o zumbido xarope que, todavia, se esvanecia em no m\u00e1ximo 24 horas. Nos 10% restantes, todavia, reside at\u00e9 hoje um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Acontecia\u00a0o seguinte: eu bem belo sentado numa cadeira, ou lavando a lou\u00e7a, ou caminhando duas quadras at\u00e9 o supermercado, ou escovando os dentes e vinha do mais absoluto nada o mesmo apito. Parecia um raio entrando por uma orelha, fritando intensamente as profundezas do ouvido e depois saindo bem mais fraco pela outra. A coisa toda n\u00e3o durava um segundo, mas sempre deixava no ar uma sensa\u00e7\u00e3o de temor e what the fuck.<\/p>\n<p>Uns anos depois rolou uma evolu\u00e7\u00e3o da mol\u00e9stia: o <em>tinnitus<\/em> aparecia da mesma forma, sem aviso nem motivo claro, e se instaurava por um dia inteiro na minha cabe\u00e7a. Geralmente eu o percebia ao acordar,\u00a0ficava preocupado algumas horas, resolvia ignorar para seguir em frente e, quando acordava no dia seguinte, ele tinha desaparecido.<\/p>\n<p>S\u00f3 que um dia em 2013 ele decidiu que n\u00e3o ia mais desaparecer. Nem no dia seguinte, nem no pr\u00f3ximo, nem no outro. Nunca mais. Pelo menos at\u00e9 aqui. Em suma:\u00a0estou h\u00e1 quatro anos ouvindo constantemente um\u00a0apito discreto no fundo do ouvido.<\/p>\n<p>Claro que isso me deixou totalmente em chamas, me fazendo considerar, gra\u00e7as aos diagn\u00f3sticos do Dr. Google, todo tipo de quadro terr\u00edvel, como tumor no c\u00e9rebro e perda auditiva avan\u00e7ada. Ao consultar otorrinos car\u00edssimos na capital dos paulistas, todavia, descobri o contr\u00e1rio: n\u00e3o possuo tumor cerebral e minha audi\u00e7\u00e3o est\u00e1 impec\u00e1vel. Fiz duas audiometrias, espa\u00e7adas por mais de um ano, e nas duas o resultado foi o mesmo: ainda hoje, aos 37, escuto frequ\u00eancias que eu deveria ter parado de ouvir aos 17 (ainda mais levando em conta que fui DJ por quase 10 anos).<\/p>\n<p>Eliminadas as duas causas mais comuns (e potencialmente graves), sobraram nada menos que 300 possibilidades. Muita coisa pode causar o <em>tinnitus<\/em>, e minhas apostas mais fortes est\u00e3o no meu colesterol elevado\u00a0(que faz o sangue ficar mais grosso e provoca perturba\u00e7\u00f5es ao passar nas delicadas estruturas do ouvido interno) e na chamada disfun\u00e7\u00e3o da ATM (articula\u00e7\u00e3o temporomandibular).<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 sabia possuir mordida cruzada e volta e meia produzo estalos ao mastigar, mas uma amiga que trabalha com o dentismo est\u00e9tico certa feita decretou: minha arcada dent\u00e1ria apresenta todos os problemas poss\u00edveis e imagin\u00e1veis. De alguma forma misteriosa, todavia, meu organismo atuou a meu favor ao longo da adolesc\u00eancia e impediu, sem aparelhos ortod\u00f4nticos, que eu tivesse o rosto desfigurado por um queixo projetado pra dentro e os dentes pra fora, tal qual um Ronaldinho Ga\u00facho. O problema \u00e9 que esse processo\u00a0me deixou todo torto, e pode ser o grande respons\u00e1vel pela cornetinha aguda que toca na minha cuca sem parar (al\u00e9m do bruxismo e do desgaste de alguns dentes que j\u00e1 ocorre h\u00e1 alguns anos). Problema\u00a0ainda maior \u00e9 que pra consertar essa brincadeira eu precisaria quebrar a mand\u00edbula e pux\u00e1-la pra frente e quebrar o c\u00e9u da boca e pux\u00e1-lo\u00a0pros lados &#8211; e o processo todo levaria mais de 2 anos de muita dor e sofrimento, algo que n\u00e3o sei bem se estou disposto a encarar (especialmente porque n\u00e3o h\u00e1 uma certeza de que v\u00e1 resolver\u00a0o <em>tinnitus<\/em>).<\/p>\n<p>No passado j\u00e1 se cagou a vida de muita gente ao promover a extra\u00e7\u00e3o do nervo auditivo, na cren\u00e7a de que isso fizesse com que o barulho cessasse. O que acontecia, na verdade, \u00e9 que a pessoa parava de ouvir todos os sons do mundo EXCETO o zumbido. O motivo? Exceto em casos muito espec\u00edficos, n\u00e3o \u00e9 no ouvido que o <em>tinnitus<\/em> se origina, e sim no c\u00e9rebro. Alguma estrutura interpreta de forma errada um impulso, e o converte num zumbido. N\u00e3o entendo muito bem esse mecanismo, e n\u00e3o estou sozinho nessa: a medicina, at\u00e9 esse ponto, tamb\u00e9m n\u00e3o manja muito essa parada. Tanto que n\u00e3o existe uma cura. Na verdade, o que se sabe \u00e9 que o c\u00e9rebro \u00e9 incapaz de lidar com a aus\u00eancia completa de sons. Se voc\u00ea se colocar numa situa\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o h\u00e1 nenhum som sendo produzido, o seu c\u00e9rebro cria perturba\u00e7\u00f5es sonoras ele pr\u00f3prio, que podem inclusive levar a um quadro alucinat\u00f3rio. H\u00e1 diversas <a href=\"https:\/\/www.tecmundo.com.br\/audio\/52481-as-salas-do-silencio-dentro-delas-voce-pode-ouvir-ate-seu-proprio-coracao.htm\">salas de priva\u00e7\u00e3o de som<\/a> espalhadas pelo mundo que provam isso.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que, pelo menos at\u00e9 agora, n\u00e3o posso dizer que se trata de um sintoma incapacitante. Por ser essencialmente subjetivo, \u00e9 muito dif\u00edcil criar uma escala confi\u00e1vel para quantificar\u00a0o <em>tinnitus<\/em>, mas existem tentativas de\u00a0classificar os volumes aparentes e suas consequ\u00eancias. H\u00e1 casos de pessoas que se matam por n\u00e3o serem capazes de suportar a mazela, especialmente nos casos que se convencionou chamar de <em>tinnitus catastr\u00f3fico<\/em>, quando o som do zumbido \u00e9 t\u00e3o alto que a pessoa n\u00e3o consegue nem se concentrar nos seus pensamentos.\u00a0No meu caso,\u00a0o que acontece \u00e9 que n\u00e3o tenho mais o direito ao sil\u00eancio absoluto, posto que toda vez que isso acontece (dentro de um elevador, nos instantes iniciais antes de uma pe\u00e7a de teatro) \u00e9 que o percebo. Durante o dia \u00e9 praticamente imposs\u00edvel escut\u00e1-lo: os sons da cidade abafam tudo. Tamb\u00e9m j\u00e1 percebi que algumas coisas potencializam o tormento: ressaca, stress e desidrata\u00e7\u00e3o. Infelizmente, at\u00e9 agora, n\u00e3o descobri nada que ajude a mitigar o sofrimento &#8211; exceto me manter sempre exposto a algum tipo de som no ambiente.<\/p>\n<p>Que coisa extrema\u00a0envelhecer.<\/p>\n<p>Quando eu tinha rec\u00e9m feito uns 30, reclamei para um amigo cinco anos mais velho que andava com umas dores misteriosas na barriga que simplesmente n\u00e3o tinham motivo. J\u00e1 tinha feito endoscopia, ultrassom, um monte de exame de sangue e estava tudo normal. Nunca vou me esquecer do que ele me disse: &#8220;\u00c9 mais ou menos nessa \u00e9poca que come\u00e7am a aparecer os sintomas que v\u00e3o nos acompanhar por toda a vida.&#8221; Parecia uma mensagem pessimista e terr\u00edvel, mas no fim das contas era o contr\u00e1rio. Nada daquilo ia me matar. Essas coisas iam come\u00e7ar a aparecer, me preocupar, me fazer acreditar estar com algum tipo de c\u00e2ncer, derretimento mental ou esclerose, mas n\u00e3o iam me matar. Eu ia fazer os exames, ia estar tudo normal, eu ia ficar me perguntando que diabos estava acontecendo, n\u00e3o ia chegar a conclus\u00e3o alguma e, com o tempo, acabaria me acostumando, a ponto do sintoma, eventualmente, desaparecer.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu com as dores na barriga.<\/p>\n<p>E o que vai acontecer algum dia, espero, com o <em>tinnitus<\/em>.<\/p>\n<p>Todavia com esse eu n\u00e3o tenho l\u00e1 muita esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que eu me lembre, a primeira vez que ouvi falar de tinnitus\u00a0foi por volta de 2002, depois de publicar no meu primeiro blog, One Hundred Percent Chongas,\u00a0um relato sobre uma noite fort\u00edssima de drum&#8217;n&#8217;bass no saudoso por\u00e3o do Fim de S\u00e9culo (que j\u00e1 se chamava NEO a essa altura). 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